Bento fica

Bento acorda com o barulho da televisão na sala e agora está esparramado na cama a escutar a esposa conversando com algum manager importante de alguma multinacional com sede alhures. Ele não consegue vê-la, mas pelo cheiro imagina que ela esteja impecável a tomar o pequeno-almoço, segurando a chávena de café com uma mão e o telemóvel com a outra. A cacofonia televisão-alta-voz-estridente-da-esposa faz o Bento levar o travesseiro aos ouvidos — monta uma concha amorfa que abafa com eficiência mediana os sons que vêm de fora. Ele finalmente decide se levantar e vestido apenas com a calça do pijama arrasta-se até à sala. A esposa o observa com os mesmos olhos reprovadores de sempre: você precisa dar um jeito na merda da sua vida, ela diz, não pode ficar por aqui vagabundeando a tempo inteiro. Bento coça as pálpebras, pega uma torrada esquecida sobre a mesa, mastiga a torrada, coloca leite numa caneca com o rosto do Stanley Kubrick, mexe o achocolatado, mastiga novamente a torrada, toma um melancólico gole do leite. A esposa sai. Bento fica.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

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