Mobilidades (modelos transitórios)*

Pelos vistos, toda a gente tem um amigo ou uma amiga que já dissera: o telemóvel está a arruinar-nos. 

Camila e Martin estão sentados nalgum café, conversam a respeito de miudezas e comem o croissant misto; não têm telemóvel. À mesa ao lado estão Lúcia e James que nunca se olham, porque atentos ao ecrã luminoso do próprio mobile. Camila e Martin mostram-se agora incomodados, porque perceberam que praticamente todos os frequentadores do café utilizam o telemóvel da forma mais natural e despreocupada possível, como se em universos paralelos. 

Paradoxalmente, Camila e Martin ao cultivar um encontro humano sentem-se desumanos, inadequados, desconectados, deslocados — assim por diante.

Elon Musk há muito defende a ideia de que os telemóveis se tornaram uma espécie de prótese essencial para o Homo sapiens. Fulano esquece o aparelho em casa e o cérebro entra em parafuso como se estivesse a ter abstinência de cocaína. Aliás, uma ressonância magnética mostraria que a estrutura cerebral de um viciado em drogas e a de um viciado em telemóvel possuem mais semelhanças do que gostaríamos de acreditar.

Certa senhora de noventa e um anos observa os netos a brincar com os respectivos telemóveis durante o almoço e lembra que com o rádio e com a televisão acontecera a mesma coisa. Os meios de comunicação a invadir a privacidade da família, diz a vovó, não se pode mais fazer as refeições em paz.

Uma simpática analogia compara os telemóveis às enciclopédias de outrora. Como aquela propaganda de telefonia que diz: estás a carregar um mundo de possibilidades nas mãos, nunca foste tão inteligente, aproveita. 

Mas há quem ainda prefira comparar o telemóvel com o urânio. A saber: se pouco enriquecido (2% a 4%), o urânio proporciona excelente alternativa energética; mas se altamente enriquecido (90% a 99%), então teremos de lidar com bombas atômicas capazes de destruir rapidamente a humanidade.

— P. R. Cunha


*Como publicado na imprensa em julho de 2018.

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

7 opiniões sobre “Mobilidades (modelos transitórios)*”

  1. Qdo o telemóvel surgiu não era um universo paralelo. Rsrs Lembro de uma colega de trabalho que andava com o seu gigante telemóvel à cintura, que mais parecia um tijolo sem buracos. Um tijolo flamengo como gosto de dizer. Não confundir com o clube. Ainda está vivo o Flamengo?
    Bem… Hoje, realmente, parece que entramos num universo paralelo ou será um oráculo?
    Eu sei que aqui em casa qdo vamos a um restaurante sou a primeira a entrar no universo paralelo, sinto o silêncio reprovador. De mansinho escorrego-o até ao saco. Falo qq coisa fora do contexto, sem nexo nem anexo. Passados 5min estão todos os outros 3 no universo paralelo e eu com cara de Pedro Bó, ou melhor, de bobonauta que acamponhou Pedro Bó.

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    1. Miau,

      Pelos vistos, ainda existe o Flamengo — é que eu cá prefiro o futebol da bola oval (sou torcedor do New England Patriots). O telemóvel: ferramenta como tantas outras, cujos objetivos dependem de quem está a segurá-lo.

      O meu, por exemplo, está sempre no silencioso, não tem ligado o rastreamento GPS, vive no modo avião, já caiu para a terra umas mil vezes e se um dia não voltar a ligar… bom, paciência.

      Mas ainda acho que cada um desenvolve para si mecanismos específicos para lidar com as belezas e os absurdos deste planeta aquoso. Noutros termos: não sou juiz de nada.

      Ótimo domingo!,

      P.

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  2. Eu o tenho e facilitou deveras o meu trabalho. Mas o esqueço pelos cantos. Ontem mesmo, se não toca, não o encontrava. E se acaba a bateria, perdido estava e sei lá quanto o encontraria. Mas, ao ver as multidões com os olhos grudados na ecrã, me divirto. O meu serve, na maior parte das viagens, como o bom e velho discman, ou o anterior, o de fitas. walkman. Nunca entendi esse nome.
    Vivo bem com ou sem, mas faz tempo que os vícios não me alcançam, a não ser o café. Ah, meu caro… esse não me escapa. Por falar em café… acompanhas-me?

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    1. Lunna,

      Acompanho-te ao café com ganas, e sem telemóvel. Quem sabe até não levo comigo uma mix-tape, à moda Walkman. Ou um LP com os grandes sucessos do Nelson Gonçalves (vide Seresta moderna [amargurado por ser tratado assim])…

      Abraços,

      P.

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  3. Quando eu vejo uns pais, num restaurante, encostarem o telemóvel ao copo do filho aí com uns três anos ou pouco mais, e a criança ficar todo o almoço vidrada no écran, a ver videos estúpidos de youtubers…acho que o “enriquecimento do urânio” cresce assustadoramente.
    Por vezes…assusta-me o futuro!

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