90 centavos e o valor da dignidade humana

A coisa é até bem simples, disse Miranda, você veste esta fantasia, faz lá umas dancinhas engraçadas durante quatro horas, volta e recebe o cheque de 120 dinheiros.

Agora estou vestido com uma fantasia com formato de número zero e tento fazer dancinhas engraçadas para os automóveis que param ao semáforo. Minha colega de trabalho, digamos assim, está vestida de número nove — o nome dela é Diana. Nossa tarefa é chamar a atenção dos motoristas para determinada oferta de determinado supermercado de Brasília: parece que o quilo de alguma coisa está a custar 90 centavos.

A nossa fantasia é felpuda, grossa, lembra a pele de um urso com excesso de peso. O termômetro urbano indica temperatura de 32ºC, mas aqui dentro — e Diana concorda — parece mais uma fornalha industrial em ebulição.

Noutros termos: sinto-me como um chocolate esquecido dentro do porta-luvas de um Fusca num dia assustadoramente quente em Copacabana.

Diana está suando e diz que nunca fizera nada tão indigno, vergonhoso, subalterno na vida. Um automóvel passa raspando e o motorista me chama de «cuzão», sem mais nem menos.

Tento me sentar na grama à espera do próximo sinal vermelho e logo percebo que isso não foi boa ideia. O peso da fantasia me joga para trás e fico deitado balançando as perninhas. Então é assim que as baratas de cabeça para baixo se sentem. Diana me ajuda a levantar.

Nossas fantasias numéricas exalam um cheiro asfixiante de autocarros velhos cujo óleo nunca fora trocado. 

As quatro horas se passaram. Vou com Diana até ao escritório da Miranda, e ficamos a saber que Miranda não está, Miranda saiu para lanchar com o dono do supermercado, Miranda só volta amanhã, Miranda levara consigo os nossos cheques etc.

Sinto pena da Diana… e a Diana, de certeza, sente pena de mim também.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

17 opiniões sobre “90 centavos e o valor da dignidade humana”

  1. Lindo! Me lembrou Manuel Bandeira em “O Bicho”:

    “Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.
    Quando achava alguma coisa,
    Não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.
    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.
    O bicho, meu Deus, era um homem.”

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  2. Infelizmente essa é uma realidade cada vez mais presente nas nossas sociedades e transversal a uma data de negócios… Trabalho escravo, mal pago e falta de respeito por quem precisa de trabalhar… Excelente texto!

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