90 centavos e o valor da dignidade humana

A coisa é até bem simples, disse Miranda, você veste esta fantasia, faz lá umas dancinhas engraçadas durante quatro horas, volta e recebe o cheque de 120 dinheiros.

Agora estou vestido com uma fantasia com formato de número zero e tento fazer dancinhas engraçadas para os automóveis que param ao semáforo. Minha colega de trabalho, digamos assim, está vestida de número nove — o nome dela é Diana. Nossa tarefa é chamar a atenção dos motoristas para determinada oferta de determinado supermercado de Brasília: parece que o quilo de alguma coisa está a custar 90 centavos.

A nossa fantasia é felpuda, grossa, lembra a pele de um urso com excesso de peso. O termômetro urbano indica temperatura de 32ºC, mas aqui dentro — e Diana concorda — parece mais uma fornalha industrial em ebulição.

Noutros termos: sinto-me como um chocolate esquecido dentro do porta-luvas de um Fusca num dia assustadoramente quente em Copacabana.

Diana está suando e diz que nunca fizera nada tão indigno, vergonhoso, subalterno na vida. Um automóvel passa raspando e o motorista me chama de «cuzão», sem mais nem menos.

Tento me sentar na grama à espera do próximo sinal vermelho e logo percebo que isso não foi boa ideia. O peso da fantasia me joga para trás e fico deitado balançando as perninhas. Então é assim que as baratas de cabeça para baixo se sentem. Diana me ajuda a levantar.

Nossas fantasias numéricas exalam um cheiro asfixiante de autocarros velhos cujo óleo nunca fora trocado. 

As quatro horas se passaram. Vou com Diana até ao escritório da Miranda, e ficamos a saber que Miranda não está, Miranda saiu para lanchar com o dono do supermercado, Miranda só volta amanhã, Miranda levara consigo os nossos cheques etc.

Sinto pena da Diana… e a Diana, de certeza, sente pena de mim também.

— P. R. Cunha

17 thoughts on “90 centavos e o valor da dignidade humana

    1. O George Orwell certa vez disse que depois que precisou de trabalhar aos semáfaros ele jamais deixara de pegar os panfletos que lhe ofereciam. Trabalho louco. E um se pergunta: é isto um homem?

    1. Raul,

      Dizer o que se passa para a cabeça com o mínimo de filtro possível. Sim, uma espécie de fluxo — mas, de certa forma, inconsciente. E o «P. R. Saramago» me fez rir alto aqui.

      Abraços e bom fim-de-semana,

      P.

  1. Lindo! Me lembrou Manuel Bandeira em “O Bicho”:

    “Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.
    Quando achava alguma coisa,
    Não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.
    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.
    O bicho, meu Deus, era um homem.”

  2. Infelizmente essa é uma realidade cada vez mais presente nas nossas sociedades e transversal a uma data de negócios… Trabalho escravo, mal pago e falta de respeito por quem precisa de trabalhar… Excelente texto!

  3. Sempre que vejo os “trabalhadores dos semáforos”, mais activos durante o sinal vermelho para os carros, penso: um dia, a Vida irá dar-lhes um sinal verde!
    Bom texto!

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