Fragmentos de um romance inacabável (parte VII) – algo que sabemos muito bem: a calmaria do Escritor não pode durar para sempre

As cartas que enviara aos amigos e aos familiares transbordam de obscurantismo. As emoções, nas raras ocasiões em que elas timidamente aparecem, estão como que escondidas sob máscaras de formalidades e distanciamentos. Noutros termos: se lemos o que ele escrevera nessas correspondência íntimas, temos quase a certeza de estarmos a lidar não com um homem real, mas com um personagem de literatura. 

Sob a fumaça, o fogo continua a mover-se sem controle, dia após dia. Estopim, gatilho, combustível para escrever. O Escritor está deitado na rede a observar os pássaros: calado, na dele, não incomoda vivalma. Seria uma péssima ideia aborrecê-lo, levá-lo ao limite, colocar mais complicações na sua cabeça. (Não mexer com quem está quieto etc.) Quanto mais você cutuca o Escritor, que — como se disse — está deitado na rede, calado, quanto mais você bagunça a ociosidade do Escritor, mais provável é que ele se torne irascível, imprudente, tristonho, colérico, ardiloso, macambúzio, desajuizado.

As ondas podem parecer calmas e reconfortantes, mas também elas devem quebrar em algum ponto, o processo precisa terminar em alguma praia, em alguma parede rochosa, na madeira de um cais, na proa de um navio. O Escritor não pode se manter deitado na rede a tempo inteiro.

Ter muito o que dizer, e não dizer nada. Ter muito o que construir, e não construir nada. Há séculos o ser humano tem feito isso.

Abre um livro, semblante de quem tem algo de extrema importância para compartilhar, e compartilha: aqui, onde as promessas para as gerações vindouras foram armazenadas. Aponta para o livro, rasga uma página, continua: é isso que acontece com as promessas. Rasga outra página: Palavras que se perdem nos resquícios apodrecidos das obras do passado. Rasga ainda outra página. E outra, e outra, e outra…

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

14 opiniões sobre “Fragmentos de um romance inacabável (parte VII) – algo que sabemos muito bem: a calmaria do Escritor não pode durar para sempre”

  1. “Ter muito o que dizer, e não dizer nada. Ter muito o que construir, e não construir nada. Há séculos o ser humano tem feito isso.” – P. R. Cunha, sensacional! Eu penso que seu nome Cunha veio da escrita cuneiforme 🙂 Quem nasceu para a escrita, o nome é o primeiro a afirmá-lo 🙂

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    1. Jorge,

      Esse comentário me fez lembrar do capítulo XIX de A vida e opiniões de Tristram Shandy em que Sterne discorre longamente sobre a influência dos nomes de batismo.

      O pai do Tristram «perdia a paciência por completo sempre que via alguém, especialmente de certa posição social e que tinha obrigação de saber alguma coisa ––– mostrar-se tão descuidado e indiferente acerca do nome que atribuía ao filho […] Que uma vez atribuído um mau nome, de forma maldosa ou imponderada, não se tratava apenas do caráter dum homem, o qual, uma vez afrontado, pode depois desenxovalhar-se;––––e, possivelmente, mais tarde ou mais cedo, se não em vida pelo menos depois da morte,–––pode, duma forma ou doutra, pôr-se em ordem com o mundo; Mas um tal dano, dizia ele, nunca poderia ser desfeito».

      Preferências por certos nomes e aversões a outros etcétera.

      Abraços,

      P.

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      1. Uma vez eu vi este livro do Sterne na Livraria Cultura. Versão português de Portugal, da Editora Antígona. No dia seguinte, fui na livraria: cadê o livro? Ou o meu duplo comprou-o, ou escondeu-o. Espero até hoje que a Companhia da Letras reimprima o livro. Até agora, nada. Tens a versão da Companhia das Letras? Sim! Tem um episódio dos Simpsons também em que o Homer pensa no nome do filho baseando-se nos possíveis apelidos. Gostaria de saber o nome do episódio. P., muito obrigado por mais esta sensacional indicação de livro 🙂 Ótimo dia! Abraços!

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        1. Eu cá tenho justamente a versão tuga da Antígona, Jorge. A tradução é incrível, o acabamento nem se fala; o livro é de um capricho indizível. Vale a pena investir um bocadinho mais de dinheiros.

          Sobre a reimpressão da Companhia das Letras, não contaria muito com isso — talvez algo para o portfólio da Penguin. Mas num futuro distante, principalmente agora que eles começaram a lançar a œuvre (palavra mais pretensiosas do planeta) do Dostoiévski.

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  2. Hay momentos de calma o de falta de ideas. Eso para un escritor debe ser muy inquietante y descorazonador. Enfrentarse a la hoja en blanco y emborronar una, otra, otra… sin acertar a decir nada.
    Espero que nunca te pase y si te pasa, que sea por un tiempo muy breve y solo para recargar las pilas…
    Un abrazo.

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    1. Mi querida amiga,

      Creo que ya he pasado por (casi) todas las etapas de la escritura — buenas y malas, euforia y melancolía, desesperación y aceptación. Ahora tengo las manos y el corazón acostumbrados a la intemperie de esa exuberante y agotadora actividad.

      Pero la verdad es que siempre hay un nuevo obstáculo, un nuevo aprendizaje — hasta que las pilas se recarguen.

      Fuerte abrazo!,

      P.

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  3. Esses momentos são normais, usufrui deles, tem consciência do silêncio, aproveita-o bem, deixa fluir. Sabes perfeitamente que é passageiro, e depois da melancolia virá uma especie de sinfonia Paulo.
    Vida de altos e baixos, os baixos são tão necessários para os altos, já sabes. Atenção quando digo baixos não falo em algo negativo, falo sim, aprendizagens.
    Digo eu, que não percebo nada da vida das letras, mas compreendo um pouco das artes e das inspirações.
    Vai, deixa-te ir, irás dar algum lado erguido e inspirado.
    Abraço

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    1. Querida Irina,

      Eu cá fico atento aos sons d’essa sinfonia (que por vezes soa à cacofonia). Saco de batatas, com batatas melhores, e batatas piores, que sobrevivem em comunidade. A maturidade, esse bichinho ardiloso & tão subjetivo, ensinou-me a ver belezas nos vales, nos abismos, nos cumes — e saber que a água do rio sobe às nuvens para depois voltar ao solo etc. etc. Mas já não sei se me explico.

      Abraços para ti,

      P.

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