Irmandade de Escritores de Brasília

Segundo a lenda, o brasão da Irmandade de Escritores de Brasília era uma coruja — a simbolizar mistério, sabedoria, conhecimento intuitivo. Ave de rapina, soberana da noite, cujos olhos enxergam através da escuridão. O desenho é estranho. Parece mais um rabisco feito por escolar indisposto. Escritor que quisesse entrar para a irmandade precisava de obedecer regras disparatadas, tais como: nunca segurar a chávena de café com a mão esquerda, jamais subir ao mirante da Torre de TV, não comprar chocolates suíços, fazer oração ao petróleo antes de dormir (oh, benzina, que move o meu automóvel com destreza…). O presidente da irmandade ficava a descansar numa cave com endereço desconhecido; realizava apenas uma breve aparição por volta do dia 21 de junho, época em que, como sabemos, marca o início do inverno no hemisfério sul. Durante o evento, que durava cerca de quinze minutos, o presidente sentava atrás de uma cortina branca e os participantes só podiam observar a silhueta do excêntrico conviva, como se fantasma escondido atrás dos lençóis. De acordo com testemunhas, ele dizia com voz calma e resoluta: não ser devedor de alguém, não se comprometer com nada, sem promessas, sem favores, a sua responsabilidade com o leitor termina assim que a última frase é escrita.

— P. R. Cunha

25 opiniões sobre “Irmandade de Escritores de Brasília

  1. “nunca segurar a chávena de café com a mão esquerda, jamais subir ao mirante da Torre de TV, não comprar chocolates suíços, fazer oração ao petróleo antes de dormir (oh, benzina, que move o meu automóvel com destreza…). ” AUHHUAUHAUHAUHAHU muito sensacional!!

    1. King George,

      Em Brasília temos políticos, blocos residenciais & loucos que se metem em «coisas artísticas» (sem juízo de valor, pois não). Ah, sim, & benzinas…

      Abraços!

      1. E o apóstolo Paulo da Literatura 🙂 Para mim, este fato sim, faz toda a diferença 🙂 Evoé, King P. R.! 🙂 Abraços!

    1. Ou moram no submundo-aquático-do-Lago-Paranoá: repleto de buracos e esconderijos artificias. Brasília é um grande cemitério a céu aberto, onde as lápides, naturalmente, são feitas de concreto e dores.

      1. “Brasília é um grande cemitério a céu aberto, onde as lápides, naturalmente, são feitas de concreto e dores.” – UAU!

    1. Querida Lena,

      A mim me parece que o escritor tem responsabilidade com a honestidade (não confundir com verdade [a ficção nos mostra que podemos ser muito verdadeiros contando mentirinhas]). Escrever honestamente, sem enganar leitores, nem a si mesmo. Depois disso, ele se torna um mero espectador. Já não tem controle sobre as coisas que anotara. É do mundo.

      1. Nossa, preciso compartilhar isso em algum lugar 😀 no facebook, talvez, onde os escritores enganam seus leitores. Tá demais hoje te stalkear (hahahah).

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