Fragmentos de um romance inacabável (parte VI) – saudades

Ler este romance fragmentado é na verdade aumentá-lo e não estar a caminho de algum fim. Romance cujo ponto final não é o ponto gráfico, tipológico, mas sim a própria vida do leitor. Romance, portanto, que nunca acaba. Romance para ser [re]lido — quando (e se) quiseres.

2 (dois) de janeiro de 2015 (dois mil e quinze) / trechos

Um olhar atentivo para essas supostas confusões narrativas permite observar grande contigente de significados. Tais como promessas a cumprir:

» Dirigir o automóvel com mais prudência;
» Diminuir o consumo de sal;
» Passar menos tempo aos websítios pornográficos;
» Assumir que odeia os livros do Tolstói;
» Evitar masturbação antes de dormir;
» Parar de cortar o próprio cabelo (há profissionais para isso);
» Ter relacionamentos saudáveis com seres humanos reais;
» Atentar-se a banhos, higiene íntima (forma geral);
» Exercícios de movimentação;
» Pedalar a bicicleta (fins-de-semana);
» Observações de condições da pele (protetor solar);
» Verificar circulação sanguínea (necessários exames);
» Ir ao hospital, se assim se pode dizer.

Outros trechos (aleatoriamente ordenados [isto não é um diário íntimo {que fique bem claro}])

Escreva depressa antes que alguém morra no meio do caminho. Imediatismo. Amanhã não se sabe etcétera.

Familiares do Escritor simplesmente não estavam preparados para ler/ouvir o que ele tinha a dizer: que o esconderijo deles (familiares), que a fortaleza artificial deles (familiares) não era lá tão ordenada/limpinha como sempre acreditaram que fosse.

De início o efeito é mesmo imperceptível, você não percebe nada, não sente nada, e depois de algum tempo começamos a colher as primeiras mudanças — uma atitude imprevisível, um colapso nervoso, palavras rancorosas, um dos irmãos não desce mais para o jantar. Tudo depende do tempo que dispomos. Se tivermos paciência, encontraremos o ponto de viragem (ponto estequiométrico). O que era calmo e previsível, transforma-se num motor de instabilidades e incertezas. Espera e vê. 

Desqualificarão os livros dele como obra de um louco, produtos de uma mente esquizoide. Escritor indefinido. Sempre insatisfeito consigo mesmo. O coração batendo de pavor, de saudades.

— P. R. Cunha

8 thoughts on “Fragmentos de um romance inacabável (parte VI) – saudades

    1. LPD,

      Escuto/escrevo melhor em momentos bucólicos; um bocadinho longe das buzinas; mas preciso voltar, sempre — porque na selva não tem livraria.

      Abraço grande para si.

  1. Saudades dos tempos que nunca foram. Lembranças do que ainda seremos.
    Escritores — um tanto de tudo, tudo é tanto… tudo menos serenos.
    E minha Mãe já me dizia, quando me portava mal:
    “Desvias-te duma, levas com a outra.”
    Tanto, tudo, uma ou outra, já não há mal nenhum na submissão.

    1. Pois, Miau — contra isso não há remédio. Um escreve aqui, outros distorcem acolá, e o Sol continua a nascer sobre as cabeças de toda a gente.

      Amanhã estarei à bordinha de uma piscina.

      Abraços,

      P.

  2. “They’re blind, blind
    Blind, blind, blind, blind, blind
    Blind, blind
    Blind, blind, blind, blind, blind
    No sense of harmony, no sense of time.”
    Talking Heads

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