Quando a Musa visitar, estejam preparados, com os ouvidos atentos — ouçam

Alberto Manguel abre as portas de sua Library at Night dedicando-a para o Craig e a nos contar que o poeta otomano Abdüllatif Çelebi costumava dizer que os livros da biblioteca «são amigos leais e dedicados que afastam todas as preocupações». Muito bonita imagem.

Por vezes para lê-los (ou mesmo até para escrevê-los) a figura humana que lida com os verbos intransitivos precisa também de encontrar um sítio afastado, uma própria biblioteca à noite. 

Gesto de resistência: de dia, sou bombardeado por imagens alheias; agora, aqui, sentadinho num cômodo aprazível, permito-me criar fantasias sem os mediadores publicitários.

Ler e escrever com uma despreocupação que beira a leviandade, nos diz ainda o Manguel.

Enganam-se aqueles que acreditam que tais fugas são unicamente tentativas de abandonar o mundo, viver para o longe e não lidar com os desgostos da realidade. Vemos Montaigne escapulindo para o cume da torre, vemos Montaigne solitário, pensativo, concentrado nas leituras e na fazenda de ensaios. Mas depois observamos Montaigne a descer as escadas de volta para a família, para os amigos, para os afazeres administrativos. Montaigne à procura de si mesmo, recluso, mas sempre a retornar, sempre atento ao nobre objetivo de sair do silêncio um sujeito melhor, mais justo para os seus.

De aí apagamos a luz da escrivaninha, dormimos um sono revigorante e acordamos um bocadinho menos defeituosos. Recompensas dos esconderijos temporários.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

14 opiniões sobre “Quando a Musa visitar, estejam preparados, com os ouvidos atentos — ouçam”

  1. Que feliz coincidência! Ontem fui à livraria e vi o livro “Os livros e os dias” do Manguel. E descobri um outro livro dele (“Com Borges”), pela Editora Ayinê. Velho, ótimo dia! E tudo o mais! Sim! Como faz para comprar ou ler seus livros?

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    1. Jorge,

      Uma obra do Manguel da qual acho que você vai gostar (com título um bocadinho sugestivo, inclusive): À mesa com o Chapeleiro Maluco — ensaios sobre corvos e escrivaninhas, editado pela Companhia das Letras. Aprendi imenso.

      Bom, já sobre o meu livrinho Paraquedas, as vendas começam a partir de dezembro. Criarei um pequeno sítio por aqui, para o, como se diz, «merchandise».

      Forte abraço, meu amigo!,

      P.

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      1. Muito obrigado pela dica! Procurarei e tudo o mais! Gostaria de, após a leitura do seu livro, se possível, enviar-lhe algumas perguntas para divulgar o lançamento do livro e para que mais pessoas conheçam o seu trabalho. Forte abraço, meu amigo P. R.!

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  2. “sempre atento ao nobre objetivo de sair do silêncio um sujeito melhor, mais justo para os seus.” Que todos os silêncios sejam capazes de nos transformar em sujeitos melhores. Lindo, P.!

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  3. Andas a roubar-me as ideias. O silêncio é o *meu* símbolo monolítico, já que te apoderaste do Escritor.

    Brinco, mas tens muita razão, o silêncio é uma inspiração, não faz embuste às flexões. Dá-nos um pensamento mais nosso, mais livre de consternações.

    Ou isso, ou andamos irritados com o mundo.

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  4. Querido Paulo,
    Que bela meditação. Deslumbras-me com a tua sensibilidade de escritor e da pessoa que és. Fico feliz de saber que ainda existem jovens como tu neste mundo. É sempre uma grande alegria ler os teus pensamentos, que partilhas com tanta generosidade e graça.
    Emanuel

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    1. Querido amigo,

      Esses dias estive a reflectir sobre os porquês de escrever. Cheguei à conclusão de que há muito mar que aqui dentro; transborda. É como a sede, não podemos viver sem ir ali e beber a água.

      Saber que meus excessos chegam a seres humanos incríveis como tu e geram qualquer coisa de edificante faz-me acreditar que nunca é perda de tempo.

      Que as partilhas continuem — aqui e aos teus revigorantes ares canadenses.

      Abraços e ótima semana,

      P.

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