Fragmentos de um romance inacabável (parte V) – você nasce sozinho, você morre sozinho

Você nasce sozinho. Você morre sozinho. É basicamente isso. No meio há esse recheio agridoce a que rotulamos «vida», com tipologia gótica. Um estranho no mundo, um exilado na própria família, um inimigo de si mesmo: Escritor.

Há três irmãos, todos criados sob o mesmo teto, como se diz, mesma escola, mesmas viagens, mesma alimentação, mesmas oportunidades. Mas lá atrás, bem no início, se estivermos realmente atentos, perceberemos pequenas perturbações, ruídos ínfimos, comportamentos imprevisíveis; um mínimo distúrbio, o suficiente para gerar tempestades enquanto todos esperavam um belo dia soalheiro. Há três irmãos, os mesmos pais — e, no entanto, tão diferentes, tão incompatíveis, tão parecidos.

Comportamentos extremamente irregulares, às vezes ódio, às vezes amor, noutras um desprendimento glaciar. Não importava quão próximos e similares eram esses irmãos, uma mínima diferença, um pequeno acidente de percurso, e um deles (ou todos eles) a sair para um caminho distinto, totalmente inesperado. De aí, qualquer tipo de predição tornar-se-á impossível. A sorte, ao que parece, está lançada.

Dúvida de Poincaré: quais são os comportamentos possíveis de um sistema de três corpos que interagem entre si através de uma força gravitacional?

Acha-se o leitor diante de uma multiplicidade de acontecimentos individuais, microcosmos narrativos, se preferir, cenas que por vezes são ou desprovidas de ligações claras, ou vinculadas por relações imaginárias muito instáveis. Está a construir o edifício com o Escritor, sente que participa ativamente do processo da leitura, sente que está a ser desafiado, nunca lera nada parecido etcétera.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

10 opiniões sobre “Fragmentos de um romance inacabável (parte V) – você nasce sozinho, você morre sozinho”

  1. Já lhe disse algumas vezes do quanto gosto da sua escrita, mas devo admitir que nada se compara aos “Fragmentos de um romance Inacabável”. É de uma profundidade emocional ímpar.
    Abraços.

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  2. É interessante perceber como, passados os anos, e vendo-me agora tão afastada de meu irmão, ainda que geograficamente perto, chego a uma conclusão enternecedora: sendo hoje tão diferente dele, apesar de termos sido plantados com o mesmo adubo, deve ser porque consegui fazer sobreviver algo de mim que é muito próprio, que não me foi dado pelos pais, ou pela casa, ou pelo meio, mas que eu já trazia comigo (de onde não sei). Você nasce sozinho, você morre sozinho. Gosto de pensar que nessa solidão encontrei alguma liberdade. E que, de alguma forma, algo de mim que é muito verdadeiro conseguiu sobreviver a esse torvelhinho a que chamamos vida, que tanto nos sacode que às vezes nos perdemos de nós mesmos. E às vezes não.

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    1. «Às vezes nos perdemos de nós mesmos. E às vezes não.»

      Outro dia, meu irmão & eu fomos visitar mamã. Mamã ainda mora na nossa casa de juventude, como se diz. Lá ainda estão meus livros, a cama sobre a qual dormi em criança, meus instrumentos guardados no armário, minhas saudades &tc. Numa altura estava no jardim a conversar com o meu irmão, & ele olhava para a casa com aqueles olhos de nostalgia. Meu irmão disse: precisei me afastar para ver o tanto que esta casa é bonita, o tanto que sinto falta daqui.

      Às vezes, precisamos mesmo nos perder…

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  3. Nasci acompanhada de uma mãe, mas outros nem isso puderam ter. Só nos resta seguir o caminho. Alguns morrem com mãe ao lado, outros nem isso, outros morrem sozinhos.
    Por acaso, somos 3 irmãos, cada um com sua individualidade, cada um com gosto e pensamento diferente. Tb andamos na mesma escola, nosesmos passeios, mas somos tão diferentes q até entramos em choque. Nem parece da mesma família. Acho triste, mas é assim.

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    1. Miau,

      Por vezes escrevo ficções e acho que estou a contar mentiras. Mas eis o que aprendi nesses últimos anos a viver de palavras: a literatura é a realidade amplificada, porque permite o retrato de todos os sentidos, sem se enclausurar apenas ao som da voz, ou mesmo à testemunha ocular. De aí a minha satisfação quando alguém comenta que: também passei por algo análogo.

      Ser humano, demasiado humano no fim das contas.

      Abraços,

      P.

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