Escritores aluados

Os norte-americanos chamam de astronauta aquele ser humano que tenta escapar da gravidade terrestre. Os russos preferem cosmonauta. Em 1957, os soviéticos lançaram Sputnik, primeiro satélite artificial da história. Em 1961, Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar pelo espaço — dentro da claustrofóbica Vostok (espaçonave com pouco mais de quatro metros de comprimento e dois metros e meio de diâmetro [basicamente do tamanho de uma casinha de cachorro moderna]). De aí o Kennedy ajeitou o topete numa tarde de ventos em Houston, Texas, mostrou que não estava para brincadeiras e disse, ou melhor, garantiu que os Estados Unidos logo realizariam uma alunagem e, o mais importante, trariam os astronautas de volta para casa sãos e salvos. Em 1969, Neil Armstrong e Edwin ‘Buzz’ Aldrin pisaram na Lua e toda a gente extasiou-se. Feitos inacreditáveis, sem dúvida. Mas a mim a cereja do bolo da chamada Guerra nas Estelas foi o caso da caneta lunática. Não é preciso nenhuma ciência de foguete para saber que as canetas comuns simplesmente não funcionam num cenário sem gravidade. Conta a lenda que a Nasa teria investido milhões e milhões em mecanismos que permitissem a utilização da famigerada tinta dentro dos módulos espaciais. Enquanto isso, os soviéticos optaram por alternativa um bocadinho mais em conta: карандаш (karandash), ou o bom e velho lápis*.

— P. R. Cunha


*Eventualmente a Fisher Pen Company de fato desenvolveria uma caneta com fluídos específicos que permitem escrever em ambientes sem gravidade. O nome da geringonça não poderia ser mais intuitivo: space pen.

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

11 opiniões sobre “Escritores aluados”

  1. Interessante ser consciente de que as tecnologias mais antigas são duradouras. Viva o lápis, praticamente esquecido pelas multidões mas ainda celebrado pelos artistas e todos que ainda possuem coração humano, como tu, nosso querido Paulo.
    Abraço, infelizmente, virtual mas duradouro!
    Emanuel

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    1. E pensar que os lançamentos das naves Soyuz ainda são realizados no Cosmódromo de Baikonur, basicamente à moda 1960. Porque as estrelas, pelos vistos, não são mais necessárias para acalentar disputas refrigeradas. E a exploração espacial mostra-se na UTI, a despeito dos planos mirabolantes do Mr. Musk para levar humanos até à superfície marciana.

      Enfim:

      Viva! ao lápis, viva! ao abraço, viva! às práticas duradouras.

      P.

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  2. Mi perra no es rica, no tiene una casita de esas dimensiones, jajaja.
    Ni sabía ni se me había ocurrido pensar que las plumas no funcionasen sin gravedad… dice un refrán español que “no te acostarás sin saber una cosa más” pues hoy ya sé una cosa más.
    Y yo sigo usando el lápiz con frecuencia, en las libretas y provista de goma de borrar, me permite corregir las tonterías que escribo…
    Un abrazo.

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