Partida de xadrez

Fim da tardinha. Luz amena. Um pequeno e simpático tabuleiro de madeira cuidadosamente polida por carpinteiros habilidosos, sessenta e quatro casinhas quadriculadas, trinta e duas peças esculpidas com esmero e capricho, dois jogadores civilizados, um vento brando a bater na testa desses gentis-homens, jogam sentados, ao silêncio, fazem apenas breves e indiferentes movimentos com os dedos — por que diabos, então, saímos de uma partida dessas transpirando, perturbados, decrépitos, como se tivéssemos lutado contra um exército invencível, ou atropelados por manadas de elefantes selvagens?

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

14 opiniões sobre “Partida de xadrez”

  1. Transpira-se e não é pouco.

    Eu já presenciei 2 cenas de xadrez dignas de se contar:
    – Era um momento de descontração com xadrez. Chega um senhor atrasado. Senta-se numa mesa, sozinho, e de uma linda caixa tira peças de xadrez ainda mais lindas. Limpa-as todas e bem devagar.

    – Nunca imaginei ver um cego jogar e bem! Seu oponente tem quase 2000 de elo, e transpirava bastante. Terminou empate.

    Hj mesmo, eu estive triste. E um dos motivos foi q fui tratar da continuação dos meus filhos no xadrez, mas este ano será quase uma despedida ao xadrez de competição por razões de estudos. Faltam 2 anos p o acesso ao ensino superior. Todo tempo contará. O mais novo não gosta tanto. No fim da noite vejo o seu post com uma cena de xadrez.

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    1. Miau,

      Estou a escrever uma série sobre o xadrez chamada «Notas quadriculadas» — gostava de publicar alguns trechinhos no blogue, depois. (Essas duas cenas que me relatou, por exemplo, encaixar-se-iam bem na empreitada.)

      E não fique triste: os miauzinhos poderão jogar sempre que quiserem.

      O xadrez por vezes fica ali, num canto, à sombra, silencioso; não tocamos no tabuleiro durante muito, até que a febre nos ataca, o xadrez não desgruda nem durante o sono, sonhamos com a rainha na diagonal, e com o rei moribundo, que não quer se mover mais.

      Lá fui eu noutras jornadas quadriculadas…

      (Não me contenho.)

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      1. Hj recebi um email triste. Era triste não apenas pq falava do falecimento de um xadrezista, mas tb pq a família colocou à venda vários tabuleiros q ele colecionava de várias partes do mundo. Causou-me uma dor. Imaginei a alegria e o esforço deste ser humano a comprá-los. Não somos nada.

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  2. Uma “maratona” corrida através de biliões de neurónios e não sei quantos milhares de sinapses tem mesmo que fazer transpirar!
    E entre elefantes brancos e elefantes pretos, que venha o diabo e escolha…escritor xadrezista sofre…

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    1. Escritor, xadrezista, rei, rainha: sobrevivemos todos (de alguma forma).

      Mas, como diria meu antigo professor de matemática, que me ensinara as técnicas desse jogo agourento:

      «O xadrez é muito amplo (pausa dramática)… mas finito.»

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