Fragmentos de um romance inacabável (parte III) – hipermodernismos

A vida começa então a acontecer quando o Escritor se compromete a escrever o livro. Ele se torna um aspirador de ideias. E a própria vida é nada mais do que um repositório de situações as quais o Escritor deve remanejar para colocá-las no romance. Quando o Escritor está escrevendo, ele está a viver. Ele quer que o livro dure para a vida inteira. É o seu propósito.

Em criança o Escritor debruçava-se sobre a janela do quarto dos pais e observava um andarilho que sempre fazia caminhadas depois do almoço. A certeza daqueles passeios acalmava o coração do jovem Escritor. Uma rotina estabelecida: almoçar, quarto dos pais, janela, caminhadas do andarilho. Mas um dia o andarilho não apareceu, o andarilho foi descansar, explica a mãe ao menino, o andarilho está morto. Receio de mudanças e assim por diante.

As tragédias do presente abastecem os temores do amanhã. Conviver com a imprevisibilidade. Antes, controlava-se tudo; hoje — nada se controla. Admissão de impotência: eu, diz o Escritor consigo mesmo, eu nunca poderei saber o suficiente para ser capaz de prever o que quer que seja, muito menos controlar o que quer que seja. Passageiro, és um reles passageiro de um comboio que vai descarrilhar a qualquer momento. Ver hipermodernismos. 

A necessidade, porém, do Escritor de se ter uma previsão a respeito do futuro, profundo desejo de controlar, ou melhor, domesticar esse futuro. E grande relutância: não, não aceito os altos níveis de imprevisibilidade, não foi assim que fui criado etcétera.

Mas antes ele tem de saber se o leitor o quer. E quando olhamos com maior atenção, damo-nos conta que o Escritor segura um copinho de uísque na mão esquerda.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

17 opiniões sobre “Fragmentos de um romance inacabável (parte III) – hipermodernismos”

  1. O Escritor sente e aceita (pelo menos deve aceitar) a imprevisibilidade de tudo, e, sabe que, por mais que queira controlar as situações e mesmo as suas personagens na escrita, a verdade é que o Escritor apenas tem o poder de observar o que está ao seu redor e simplesmente descrever o que vê, dando aos seus leitores uma perspectiva talvez inesperada, e um meio de ver as coisas diferentes, mesmo que sejam o fruto de “um copinho de uísque”. Afinal de contas, o livro sempre chega a um fim determinado pelo Escritor mas sabemos muito bem que os fins nunca chegam deveras. Há sempre mais para contar….

    Liked by 2 people

    1. Observar, guardar o que for possível, ruminar. Depois, sobre o papel, escrever a respeito daquilo que se recorda, fazer ajuste fino com aquilo que se esqueceu. O(s) copinho(s) de uísque, neste caso, à laia de anestesia. De aí o processo se repete. Pelo menos até o cérebro receber a devida oxigenação.

      Gostar

  2. Conheci um andarilho. Sempre após o almoço dava uma volta completa ao lado da muralha de uma cidade, e faz 2 anos q descansou. Ele, praticamente, era um personagem da cidade, juntamente com outros 2 personagens de áreas diferentes.
    O seu texto fez-me lembrar um personagem do meu bairro. Diziam q era um mendigo, um sem teto, não sei bem. Só sei que tinha um nome q me chamava atenção, Vicente.

    Liked by 2 people

    1. E, lwmbrei de outro andarilho. Eu já tinha 20 e tantos anos. Ele passava pela casa de praia pedindo trabalho, e andava com uma enxada. Então, minha mãe dizia-lhe p limpar o terreno, e um dia íamos comer na varanda, assim mamãe ofereceu-lhe um lugar à mesa. E ele disse: dona, a minha mulher é tão preguiçosa, tão prefuiçosa, mas é a primeira a se sentar à mesa.
      Bem, na altura dos meus 20 e poucos, confesso q tive q me segurar p não rir, mas o segurar tb fez-me refletir sobre toda a cena, e tanto q até hj conto essa história em casa.

      P.S. O Vicente foi um personagem andarilho da minha infância.
      O senhor andarilho da muralha foi já bem adulta.

      Liked by 1 person

      1. Um jovem-velho (ou um velho-jovem [escolha a própria aventura]) senta-se à escrivaninha. Está no Brasil, mais especificamente em Brasília. Escreve estórias introspectivas, por vezes com alguma coisa cômica, noutras tantas vezes desanda a tratar de miudezas taciturnas. O importante é que essas estórias cruzam oceanos, viajam pelos cabos da world wide web e atingem as córneas* de leitores alhures: em Itália, vamos supor. A luz é focada através da pupila, chega à retina. O cérebro assimila, reparte, reconstrói, descarta, inventa. O cérebro está a funcionar, mexe nas próprias gavetas — lembra da muralha de uma cidade, da praia em criança, de uma enxada, de uma refeição à varanda, dos Vicentes, e de tantos outros andarilhos que já não andam mais.

        *Como bem sabem os oftalmologistas, são as lágrimas que mantêm a córnea úmida e saudável.

        Gostar

  3. Porque o texto se refere a um andarilho e porque li o comentário do Miau…me reportei a minha infância. Havia um andarilho chamado Lazinho que visitava a casa dos meus avós (que era no campo) para fazer suas refeições. Ele sempre punha defeitos no que comia. Seu dormitório era numa igrejinha de um chamado “Kilômetro 50”. Quando soube que ele havia morrido, fiquei muito triste porque ele fez parte da nossa história. Uma mera coincidência ler sobre a tristeza do personagem com relação ao andarilho. Me reconheci de alguma forma. Abraço P.

    Liked by 1 person

    1. Querida LPD,



      Blogueiro tumultuoso merece também se divertir (um bocadinho) com a confusão alheia. Tudo resolvido.

      (…)

      Na minha juventude, uma professora do ensino médio, muito querida, dissera-me que toda a gente que se coloca a escrever carrega consigo uma espécie de espelho — o escritor trata-o com experiências, contextos, sentimentos etc. Acrescentara ainda, a professora querida, que a beleza da escrita era ainda mais evidente quando esse espelho refletia a imagem dos próprios leitores.

      Espelhos, portanto, através dos quais nos reconhecemos — coincidentemente ou não.

      Forte abraço,

      P.

      Gostar

  4. bom você não me conhece e acho até melhor que seja assim. peço inclusive desculpas pelo e-mail falso. eu venho te lendo já faz algum tempo e acho as coisas que vc escreve de muito bom gosto, de um refinamento ímpar. eu até me arriscaria a dizer que você é muito melhor do que todos esses escritores brasileiros vivos e que são lançados pela cia. das letras. daniel galera, michel laub, marçal aquino aquelas duas menininhas que a cia. das letras também edita, eu sempre me esqueço o nome delas, o tal de akapoeta que é horrível. enfim vc é tem um talento impressionante e acho que é só uma questão de tempo até uma editora grande te achar e te lançar. era só isso que eu queria dizer. abs!

    Liked by 1 person

    1. Confesso que me sentiria mais à vontade se a sra. Anônima saísse do esconderijo. O blogue está a completar cinco meses, tempo o suficiente para perceber que aqui ninguém morde. De qualquer maneira, muito obrigado pelas palavras.

      Abraços,

      P.

      Gostar

  5. Há medida que os anos foram passando pelo escritor, essa necessidade de ….”previsão a respeito do futuro, profundo desejo de controlar, ou melhor, domesticar esse futuro” vai atenuando, apenas porque o suposto futuro que temos pela frente começa a ser menor…e menor…. Básico não é? Mas importante!
    Ou seja, ele faz cada vez menos “peso” no nosso presente!
    Por tudo isto…
    …se o copo está na mão esquerda…é muito provável que a caneta esteja na direita… Então meu caro P.R. Cunha escritor, continue divagando, escrevendo sobre os seus andarilhos da mente, viva o presente com garra e muitas dúvidas também, devaneie, ficcione, …mas não perca tempo a pensar na imprevisibilidade da vida ou do futuro. É tempo perdido! A vida, vai simplesmente acontecendo.

    E faça o mais importante:
    acredite de uma vez por todas em si, fazendo o que sabe fazer tão bem: escrever!

    Liked by 1 person

    1. Querida Dulce,

      Obrigado pela visita.

      (…)

      Estudei com um filósofo austríaco em São Petersburgo. Ele me contara que tinha dois tios praticamente da mesma idade: um por parte de mãe, o outro por parte de pai. Parece que o tio por parte de pai dava um trabalho imenso, era visto como um grande estorvo. O tio por parte de mãe era muito sábio, correto, estudioso. Compartilho de memória uma interessante frase do amigo filósofo, à Wittgenstein:

      Ambos provavelmente morrerão sem entender das coisas. Mas um passou a vida toda a incomodar. O outro, pelo menos, esforçou-se, buscou-se.

      É isto. Sem moral, sem propósito.

      Escrever não é necessariamente uma prática filosófica, mas anda ali bem perto. Depende também do significado/sentido que absorvemos da tarefa, do nosso grau de idealização.

      Enfim.

      Por enquanto, continuo a divagar — bem devagar.

      Abraços,

      P.

      Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s