Brasília-DF

Nasci em Brasília, um fim do mundo mais jovem do que meus pais cariocas. Hoje, às portas da trigésima terceira volta ao redor do Sol, consigo compreender melhor que faz parte da minha «essência ambivalente» (na falta de outros termos) ser um bocado ríspido quando falo/escrevo sobre esta quinta de concreto e árvores com troncos tortuosos. Esta cidade com um futuro que nunca chega, que sempre foi minha e que nunca será completamente minha. Mas se você estiver atento o bastante, Brasília pode até lhe transformar num poeta de seis andares, a modificar as cores do asfalto — cinza.

Dedico este poema à Thaysminy Marques Coelho, que melhor compreende a capital federal.

ASFALTO VOLTADO PARA O CÉU
(Inverno de 2018)

Penso em Brasília
o automóvel a chegar
sempre antes de toda a gente

Duas asas —
eixo monumental
asfalto voltado para o céu

Penso em Brasília
nas feridas
que já não saram

N’um dia nublado
sem saber se lá estão nuvens
ou lamentos triviais

Pois em Brasília
queria encontrar-me
E com mais ninguém.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

23 opiniões sobre “Brasília-DF”

  1. Oh honra, viu?

    Agradeço grandemente por ter me relacionamento a essa cidade de asfaltos cinzas, mas de céu único e autêntico.

    Quando comecei com o projeto, meu maior medo sempre foi não encontrar essa coorelação.
    Nem que encontrassem, os outros, essa correlação.

    Obrigada pela sensibilidade há 33 voltas em torno do sol. Parabéns por todas elas e por estar aqui compartilhando comigo o mundo da escrita e sendo tão generoso.

    Quando tudo estiver pronto, não me esquecerei dessas palavras.

    Que esses dias passem para que possamos comemorar todas esses dias de volta à bola de fogo.

    Liked by 2 people

    1. Thaysminy,

      Brasília tem, sem dúvida, muitos espaços vazios. Mas às vezes a distância entre os corpos é apenas uma construção. Percebe-se isso principalmente quando se sai de dentro dos automóveis; quando longe das autopistas.

      Sentados embaixo de uma superquadra, ou às mesas de um bar etílico, alguns a caminhar pelo parque da cidade — ali estão os brasilienses (nativos & adotados) a ser humanos.

      (…)

      À espera de comemorações: quando tudo estiver pronto.

      Abraços,

      P.

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  2. Fez a “cidade-contemplação” transfigurar-se em um poema um bocado espirituoso! rs

    Que você possa saudar a alegria do renovo muitas outras vezes, que venham mais voltas ao redor dessa estrela quente! 🙂

    Abraços! ^^

    Liked by 1 person

    1. Mabynha!,

      Brasília, há anos, dilata as minhas artérias — quando falo sobre ela, é como se estivesse a ter um aneurisma da aorta torácica. Pode parecer assustador, mas até que nos damos muito bem.

      Obrigado pela mensagem calorosa.

      E abraços saudosos para si,

      P.

      Liked by 1 person

      1. P., muito obrigado! Que seu fim de semana esteja sendo muy bueno. Abraços e ótima semana! o/ “Jorge Sasgarante, o mais nobre dos Jorges.” -> fiquei foi feliz huahuaa tu quem és sempre muito gentil. muito obrigado ae manolo! o/ tudo de bom e tudo o mais!

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    1. Alissa!,

      I must confess, it would be quite difficult to translate everything into English. Especially because it is a very Brazilian text. I will try, however, to translate the poem for you. I hope it works.

      ASPHALT FACING THE SKY
      
(Winter 2018)

      

I think about Brasilia
      the automobile arriving

      always before people

      Two wings —
      
monumental axis
      
asphalt facing the sky

      I think about Brasilia
      
about the wounds

      that cannot be healed

      Cloudy weather
      
without knowing if there are clouds

      or trivial lamentations

      Because in Brasilia

      I would like to find myself
      
with nobody else.

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      1. Thank you. It does read better when you translated it. ❤
        When I translate the page it translates my original English comment into English again and completely changes the meaning.

        Liked by 1 person

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