Como ler livros incandescentes

Uma breve pausa na publicação de Fragmentos de um romance inacabável para falar sobre universos — sideral & literário.


Dizem que todo livro de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. E aqui utilizo a palavra «verdade» da forma mais abrangente possível: substantivo feminino cujo efeito pode (e deve) variar de acordo com o contexto dos nobres leitores. Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.

Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? 

O Sol, estrela ao redor da qual o nosso planeta viaja a incríveis 110 mil km/h, é fonte primordial de vida aqui na Terra, mas também uma bola gigantesca com capacidades destruidoras inimagináveis. 

Daqui a oito dias (dezesseis horas e quarenta e um minutos), a Nasa lançará a Parker Solar Probe, um veículo espacial com formato de lanterna — daquelas que costumávamos encontrar na dispensa dos nossos avós. Essa curiosa espaçonave foi construída para estudar as brutais atividades solares. Mas, diferentemente de outras missões com objetivos parecidos, a Parker chegará perto, muito perto mesmo da superfície do Sol*.

Os riscos, segundo a Nasa, valem a pena. Por conta da aproximação inédita, a Parker produzirá imagens muito nítidas. Ao passo que os cientistas poderão pesquisar mais detalhadamente as peculiaridades solares, além de analisar outras possíveis ameaças desse Monstro de Fogo irascível.

Parker Solar Probe: nem tão perto a ponto de incinerar-se, nem tão longe a ponto de desfocar as lentes. E com isso ela nos dá, também, uma excelente aula de literatura.

— P. R. Cunha


*6.2 milhões de quilômetros — sete vezes mais perto do que qualquer outro objeto construído por seres humanos. Ou dez vezes mais perto do que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Estima-se que a Parker Solar Probe orbitará a estrela a uma velocidade de 192 quilômetros… por segundo. É um bocado rápido.

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

18 opiniões sobre “Como ler livros incandescentes”

  1. Ual! Esse texto foi incandescente!!! De primeira consegui ficar a uma distância “segura”, mas já agora enquanto escrevo já começo a pensar nos livros que me organizaram e destruíram. Anna Kariênina e A morte de Ivan Ilicth, de Tolstoi, são bons exemplos…e estou agora a bordo dum Parke Solar Probe orbitando um estilo de leitura que eu não achava que poderia gostar…veremos no que isso vai dar.

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    1. Brinco de Pérola,

      Os livros russos (principalmente os oitocentistas) têm mesmo essa perturbadora característica de destruir-organizar-bagunçar-edificar-tudo-ao-mesmo-tempo.

      E se estás a bordo de Parker Solar Probe, digo-te isto: relaxa e aproveita a jornada. Pois os astrofísicos são excelentes guias às estrelas.

      Abraços,

      P.

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  2. Eu nunca fui muito amiga os raios solares, eles me incomodam, mesmo quando no outono que me faz pensar em calda de caramelo. rs Mesmo assim, eu prefiro fechar os olhos e sentir na pele, por dentro. E quanto aos livros, sim, contraditoriamente são o meu sol nos olhos, dos russos (ah, meu santo Karamazov) aos franceses (Baudelaire que me ajude) enfim, eu sou uma espécie de Parker a me aproximar (quase em queda no abismo) e a me afastar das páginas. rs

    gostei daqui!

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    1. Outono e calda de caramelo é lá uma associação interessante, Lunna.

      Os raios solares, em dosagens moderadas, me fazem muito bem. E a mim me parece que o comedimento se adequa às estrelas de papel.

      Enfim: orbitemos a literatura a uma distância apropriada, qual Parker a orbitar o Sol de fogo.

      Volte sempre,

      P.

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  3. “Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.”

    Trecho perfeito 🙂

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  4. Fazes uma pergunta muito interessante. «Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? »
    Qual será a resposta? Talvez podemos chegar tão perto que, como o sol certamente nos queimaria, os livros, com as suas palavras que brilham chamas de calor, também podem-nos queimar. Que bom seremos consumidos pelas palavras, nós que gostamos de brincar com elas, manipulá-las em frases fluidas ou torturadas, à busca de sentido, de contato, de beleza e, muitas vezes, de dor.
    «Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? » Que decide cada um que se apróxima.

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    1. Concordo contigo, Emanuel.

      E acrescento isto: há sóis muito mais assustadores do que a nossa estrela de tamanho médio; outros gigantes dos quais não poderíamos nos aproximar tanto. Os livros, a meu ver, seguem um padrão parecido. Mas trata-se de um padrão particular — cada leitor, a bordo do próprio veículo espacial, deve saber até que ponto chegar. A boa notícia: diferentemente das Bolas de Fogo, a literatura em chamas permite o método de tentativa e erro.

      Abraços,

      P.

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