Fragmentos de um romance inacabável (parte II) – livro do caos / viagens

Escrever livro é como se preparar para uma longa viagem a um país estrangeiro sobre o qual pouco sabemos — porque, em verdade, busca-se apenas conhecer algo mais de si mesmo. A jornada é um pretexto. Quando o Escritor não está a trabalhar em algum manuscrito, sente-se prostrado, observa a lenta aproximação do vazio, mostra-se incapaz de se concentrar em algum propósito. Precisa de traduzir esse estado melancólico em alguma nova forma de escrita, fugir do momento-Roland-Barthes, aquele instante em que tudo parece terminado, o mundo silencioso em que dorme um sono leve, o Escritor.

Dissidência em relação ao Brasil, aos amigos, à realidade.

A morte é algo que acontece alhures, até acontecer consigo, dentro da própria casa. A morte, como toda a gente sabe, não pede licença. A morte não bate à porta, prefere arrombá-la. A morte é uma estrela enorme, pesada, supergigante. A morte não se deixa ver, tocar, ouvir, nem respirar. A morte tem algo de invisível. A morte acaba.

É sobre as próprias ansiedades que o Escritor está a falar, sobre a ansiedade moderna, ansiedade de todos nós, pois não. 

Escrever serve, portanto, para resgatar. O Escritor constrói outros universos porque luta contra a própria finitude, pretende afastar-se desse fim. É um cabo de guerra do qual sabe não poder sair vencedor, mas esforça-se para adiar a derrota. Que pelo menos o depois da escrita seja diferente do antes da escrita etcétera.

E o que ocorre quando a garantia de segurança é retirada do menino, a garantia do «tudo está sob controle»? Quando os fatos reais começam a demonstrar que as regalias infantis foram apenas miragens, ilusões passageiras? Quando um acidente automobilístico destrói todas as pretensões de grandeza do menino? A existência não é mais um lugar confortável.

Disponibilidade para as catástrofes, uma vida boa que nunca chega.

Escritor aparentemente (só aparentemente) fazendo-se de bobo.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

16 opiniões sobre “Fragmentos de um romance inacabável (parte II) – livro do caos / viagens”

  1. Acho que estamos ligados por um cabo, meu adorado Cunha. Ainda ontem publiquei um excerto da minha própria tentativa na prosa cujos valores subjectivos da realidade introspectiva se assemelham muito aos que expões aqui, faltando apenas o escritor.
    Demasiados temas, muito pouca gente.
    E tu, tens demasiado talento, e pouca gente.
    Já ouviste o fabuloso trabalho do Al Bowlly, produzido nos anos 30?
    “Midnight with the stars and you
    Midnight and a rendez-vous.”
    Envio-te uma carícia digital, para que não te esqueças do carinho que o mundo ainda tem por ti.

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    1. Caríssimo Jota,

      Sentamos à mesa dos juristas e os juristas falam de jurisdição. Um banquete para o rei, e lá todos só tratam dos problemas do reino. Dois jornalistas que se encontram para tomar um café vespertino e não conseguem conversar sobre outra coisa — jornalismo. Vida no jornalismo, as dificuldades do jornalismo, absurdos do jornalismo… assim por diante.

      Escritores escrevem, mentem um bocadinho e problematizam a própria fazenda literária. E o planeta continua a girar ao redor do Sol, e o universo de Hubble expande-se, indiferente às dores humanas.

      Do saudoso Al Bowlly conheço «Guilty» (cujo título, pois não, vem a calhar). O granulado do vinil; Bowlly à marquise etílica, entorna uma garrafa de Pickwick.

      Obrigado pelo alento digital.

      Até à próxima,

      P.

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  2. P.,
    não to sabendo lidar com teu romance, então não vou comentar muito, tá?
    Mas minha leitura atenta e carinhosa estará sempre aqui e o meu abraço ansioso (virtual)
    também!
    Beijos queridos,
    G.

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  3. Tenho muita vontade de escrever sobre a “morte” e tenho resistido a fazê-lo… Porque da mesma forma que quero escrever sobre ela, também não tenho quase nada para dizer.
    Gostei de “Fragmentos de um romance inacabável”, tive de ler várias vezes e mesmo assim não tenho a certeza de ter compreendido completamente… Abraço.

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    1. Querida amiga,

      Pois não resistas. Escreve à própria maneira. Se sentes vontades é porque claramente tens algo a dizer. Sugiro-te um livrinho da Elisabeth Kübler-Ross que pode te ajudar no desembaraço, chama-se Sobre a morte e o morrer.

      Até à próxima!

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