Se pretendo ser escritor

A minha amiga poetisa G. lembrou-me que hoje é dia dos seres humanos que escrevem. Coincidentemente, estava a organizar meus textos mais antigos e deparei-me com este curioso manifesto (na falta de melhor termo) que escrevi em 2009, aquando vivia para São Petersburgo. Eu tinha 24 anos na altura.


SE PRETENDO SER ESCRITOR

Hoje eu moro na Rússia, perto da antiga casa do Dostoiévski. Hoje eu pretendo ser escritor.

As pessoas que me leram (basicamente: mãe, pai, o editor de suplementos do Correio Braziliense, namorada, uma prima que mora em Ipanema) disseram que minhas estórias são melancólicas, introspectivas, «têm qualquer coisa de crua ali», sinceridade etc.

Se pretendo ser escritor, que tipo de escritor pretendo ser:

Há os escritores ácidos. Escrevem para tumultuar, tirar-nos da zona de conforto. (Utilizo-me do tempo presente à guisa de estilo, mas a maioria dos autores que citarei adiante já, como se diz, bateu as botas): Hemingway, os melhores ensaios do Orwell, Christopher Hitchens, Swift, Handke, Norman Mailer, Ginsberg, S. Thompson, Bernhard, Kerouac, Burroughs, Dos Passos, Casanova, Sade, Bukowski. Outros escritores são bonzinhos e contemporizam; o sr. Chesterton, por exemplo, bonzinho, os contos alienígenas do Bradbury, bonzinhos, a prosa bucólica do Walden, idem.

Eu pretendo ser um escritor ácido & bonzinho, inverno & verão, Rússia & Brasil, luz & sombra. Um escritor bipolar, portanto — assim como o rapaz que segura esta caneta azul (presente da minha madrinha, a Marli).

O que é um escritor? Escritor é aquele que constrói frases. Um engenheiro gramatical.

Gostava de ser isto: engenheiro gramatical.

Quem sabe um dia.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

15 opiniões sobre “Se pretendo ser escritor”

  1. Gratidão pela referência, meu amigo!
    É um prazer te ler por aqui, adoro teus personagens, adoro “conversar” com eles
    e espero em breve ler algum livro teu. Além de ser um excelente escritor, tu és um ser humano incrível, generoso e isso faz com que a tua escrita se torne mais admirável ainda. Tu tens o dom de fazer as pessoas se revelarem com a tua gentileza e isso é lindo! Parabéns a ti, Escritor querido!
    Beijos,
    G.

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    1. Miau,

      Até à altura todos os lados deste seu polígono me agradaram deveras.

      A engenharia (principalmente aquela relacionada às construções civis) sempre me encantara.

      Inclusive, já que está em andanças italianas, sugiro despretensiosamente a leitura do livrinho A chave estrela, obra do italianíssimo Primo Levi. Verdadeiro deleite às mentes engenheiras, pois não.

      P. S.: Miau me disse que estava a ler o blogue na praia, e tenho algo para lhe confessar: quando escrevo, sempre escrevo pensando que a minha leitora ideal está sentada numa espreguiçadeira, a ouvir o barulho dos miúdos a jogar bola na areia, e os murmúrios reconfortantes das ondas que quebram na orla. Aproveite o calor dos simpáticos fazedores de mímica e até à próxima.

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  2. Me gusta cómo escribís, aunque no siempre me quedo a comentar. Feliz dia del escritor!
    Lo que más me gusta de tus escritos es que dan esa sensación de que falta algo, sobra un espacio que el lector puede completar.
    Un abrazo, querido amigo!

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  3. Olá Paulo,
    Que bom voltar à net e ler os teus últimos textos. Já tinha saudades, mas o verão em Toronto chama-me para passar todo o tempo disponível ao ar livre (curta estação antes dos longos invernos que chegam sempre demasiadamente cedo!)
    Parabéns em alcançares o teu sonho de seres um escritor-engenheiro gramatical. Mas acima de tudo, parabéns pelo teu jeito de criar/construir frases encantadoras.
    Um grande abraço,
    Emanuel

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    1. Caro Emanuel,

      O verão chama e o verão revigora. E a mim me parece que as melhores leituras são feitas com a mente descansada, arejada.

      Eu cá já sentia a falta das tuas intervenções.

      Um forte abraço,

      P.

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