Assim era o Herbert

O Herbert tinha dentro de si, ela disse, aquela certeza ingênua de que podia ganhar a vida de maneira decente, com as próprias mãos — e aqui ela sacode as mãos —, sem precisar lamber as botinhas a ninguém. Um homem amiúde calado, ela disse, mas quando começava a falar, não parava, falava pelos cotovelos, e citava uma série de termos da geografia portuguesa: Pedrógão Grande, Aveiro, Zêzere, Trás-os-Montes, Beira Baixa, Leiria, Entre-os-Rios, Bragança, Mirandela, Freixo de Espada-à-Cinta, Mesão Frio, Murça, Torre de Moncorvo, Valpaços e não só.

A gramática, dizia o Herbert, ela disse, a gramática para ele era apenas instrumento, ferramenta. O Herbert lembrava então de uma cena em que o pai dele tentou pregar um quadro do Cézanne, acho que o Femme au chapeau vert, utilizando o cabo de uma antiga chave de fenda 3/16 x 12”. Talvez o martelo se mostrasse mais adequado para aquele empreendimento, dizia o Herbert, mas o objetivo (i.e.: deixar o quadro grudadinho na parede) fôra devidamente alcançado, acrescentando ainda, o Herbert, que a moldura permanecia exatamente no mesmo lugar, sem qualquer sinal de instabilidade. 

Chave de fenda, martelo, Cézanne, gramática — Herbert.

Uma vez me falaram que ele tinha uma doença chamada alexitimia, condição terrível em que o indivíduo se vê incapaz de exprimir a própria vida emocional. Mas isso era uma grande bobagem, ela disse, o Herbert não tinha alexitimia coisa nenhuma.

O Herbert estudava cérebros, queria aprender como eles funcionavam. Um homem tem de tratar das necessidades básicas antes de se pôr com luxos, ela disse com ares conspiratórios. E quando ele falava sobre os cérebros, miudezas relacionadas aos cérebros, que temos neurônios que disparam e fazem novas conexões a todo o momento, e que esses disparos, o Herbert explicava gesticulando à beça, ela disse, esses disparos determinariam o caráter de todas as nossas experiências, ela disse, quando o Herbert falava sobre esses assuntos cerebrais sentia sempre que dava um bocadinho nas vistas dentro dos inúmeros cafés que costumava frequentar.

Torneio de futebol em criança, primeiro beijo, a primeira ereção, os tombos, as primeiras reprovações, quebrar a perna nas férias, algum sucesso acadêmico, outros fracassos amorosos, universidade, prêmio de literatura, paternidade, doenças, viagens alhures, quase morrer afogado num desastre náutico; nunca somos os mesmos, o Herbert costumava dizer. E depois de uma significativa perda, ela disse, o Herbert me contou uma das coisas mais fascinantes que já ouvi: que não é o tempo que cura o luto, somos nós que nos modificamos, transformamo-nos num outro, a carcaça pode até ser a mesma, mas lá dentro é outra coisa, criamos novas sinapses, seguimos em frente, esquecer-se é tão importante quanto lembrar-se.

Ele tinha por hábito levantar a chávena de café, como se estivesse a brindar com os deuses, era gozado de assistir. Minha satisfação com o café, dizia o Herbert, minha satisfação com o café é sagrada, de maneira que detesto ser incomodado enquanto tomo o meu café, dizia o Herbert, o sujeito tenta relaxar e beber um café, e de repente alguém está a lhe chamar sobre os ombros, e você vira, e percebe que esse alguém se aproxima, um alguém que de certeza lhe conhece, mas você não faz ideia de quem seja, você só quer tomar o seu café sem ser incomodado, e o tal sujeito faz que quer um abraço, aquela posição absurda de abraços em público, e diz: «porra, Herbert!, onde você se meteu?!», mas você ainda não faz a menor ideia de quem seja essa pessoa, você não lembra, existe um vazio na sua consciência, um vazio do tipo: «quem diabos é esse ser humano que quer meu abraço?», você tenta, mas não consegue recordar, você pousa a chávena sobre a mesa, levanta, dá-lhe um caloroso abraço e grita: «pois quanto tempo, meu amigo!», e você começa a se odiar, muito, dali em diante. Assim era o Herbert, ela disse.*

— P. R. Cunha


*Há algo de reconfortante nesta de se esconder num quarto fechado, à escrivaninha, rabiscando narrativas etc. A luz da luminária que aquece o meu cocuruto enquanto a caneta desliza, ou melhor, dança sobre as linhas de um palco de papel creme. Durante vários meses acordei com este nome, Herbert, na cabeça e o personagem começou a me perseguir como um palhaço de Stephen King. Até que recebi um WhatsApp do editor de certa revista literária chamada BIGCRUNCH (desse jeito: anglicismo, caixa alta, tudo junto) a encomendar contos e achei que poderia ser um momento interessante para exorcizar o Herbert. A estória acima, portanto, seria publicada no primeiro número da BIGCRUNCH — junho de 2018 —, mas por questões financeiras a revista nunca chegou a existir.

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

18 opiniões sobre “Assim era o Herbert”

  1. Un personaje especial, Herbert. Y con buenas ideas… las cosas que nos van sucediendo a lo largo de nuestra vida nos van moldeando por dentro, la corteza exterior sigue siendo la misma (con algunos despefectos) pero el interior se va modificando a fuerza de los golpes que nos da la vida.
    Por eso, disfrutemos de los buenos momentos, como ese tan sencillo de tomar un café sin interrupciones, o sentarse a la puerta de casa en un atardacer anaranjado para ver como se vuelve noche, o ver las olas del mar como besan la arena…
    Un abrazo.

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    1. Me alegro de verte aquí, Estrella. Te estaba extrañando.

      Sí, es un batido, un milkshake: tiempo, modificaciones psicológicas, adaptaciones, caer en la lona, levantar, luchar — vivir.

      ¿Para que?



      Bueno… Para disfrutar más de los cafés y de las olas oceánicas.

      Fuerte abrazo.

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  2. Simpatizei com este Herbert. Não ser um lambe botas é essencial.
    A revista era p ser eletrónica?

    P.S.: Escrevo-te de um quarto de hotel no centro histórico de San Marino. Penso q seria um bom cenário p um personagem. Não vale a gata de botas. 😀

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    1. Miau,

      Mesmo em férias continuas a me visitar — gostava que soubesses que isso me alegra imenso.

      Seria uma revista de papel, a BIGCRUNCH. E os editores brigaram por conta de outros papéis: aqueles que têm números e podem ser utilizados para trocas comerciais. Literatura & dinheiro não costumam ter longos relacionamentos — um antigo disse isso.

      P. S.: por algum motivo San Marino me faz lembrar dos livros do John le Carré, com qualquer coisa de espionagem, agentes duplos, traições governamentais. Nada de gata de botas.

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      1. Não dá para deixar de ler seus posts, onde até os comentários são interessantes.
        Concordo. San Marino é um cenário perfeito p o estilo.
        Escrevo de uma praia no salto da bota italiana, na costa adriática. Há muito q se falar dos italianos. 😀 Bem, pelo menos parecem dar muito valor ao seu idioma. 90% das músicas tocadas é em italiano. Comunicar com eles só em italiano e mímica. Eu já tinha observado isso noutras andanças por aqui, mas a região do Solento ultrapassa tudo. 😂

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        1. Miau,

          Quando morei em São Petersburgo, uma das minhas melhores amigas era de Palermo, Sicília — justamente a «bola» que a bota continental está a chutar. E percebi as mesmas particularidades as quais você descreveu acima: orgulho idiomático, identificação regional, a música, a cultura, a história renascentista… Numa palavras: aquilo que o Elio Vittorini costumava chamar de italianidade.

          P. S.: seus relatos turísticos me encantam até nestas curtas caixinhas de comentários. E gostava imenso de ver Miau a gesticular à moda italiana enquanto explicações. Haha!

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  3. Que texto excelente. É parte de um livro? Se for… Parabéns. Uma vez fui me inteirar sobre o significado da palavra Alexitimia porque uma pessoa me disse que não conseguia explicar o que sentia. Na pesquisa que fiz a condição de alexítimo é bastante atual e muitas pessoas não sabem que passam por relevante processo interior. Quando você se refere a Hebert estudar cérebros me recordei do Dr. Simão Bacamarte do livro o Alienista, um texto que analisei há pouco tempo (e há ainda o que me aprofundar nele). Sabe, mostrar o mundo psicológico das personagens favorece o entendimento de alguns aspectos da realidade (função social da literatura que me encanta). O luto é mesmo um processo de transformação nos mais diversos aspectos da realidade, somente quem perde alguém querido sabe como é. Abraço

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    1. Querida LPD,

      Hebert apareceria apenas nas páginas da BIGCRUNCH. Mas gosto muito dele. Estou a ver se consigo colocá-lo no enredo do meu próximo romance — longe dos holofotes; coadjuvante divertido, talvez.

      Sobre o mundo psicológico das personagens… Bem, eu cá sempre gostei de escrever de forma corrida, fluxo de consciência. Mesmo as narrativas dos meus livros estão em alta velocidade.

      O blogue, portanto, é um ótimo exercício. Serve para melhorar meus pontos fracos, digamos assim. Ensina-me a ter mais paciência com o desenvolvimento interior das personagens. E procuro aprender com cada tentativa.

      A verdade é que erra-se muito até se acertar.

      Obrigado pela mensagem enriquecedora,

      P.

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