Oceanauta – trechinhos

Depois de muito tempo no fundo do mar, o coração do Oceanauta é quase tão frio quanto gelo. Ao chegar à superfície, exausto, procura uma casa de banho. O Oceanauta mija, sem nenhum pensamento específico à cabeça. «O sono é realmente importante», ele diz enquanto pressiona a descarga de metal.

Urinóis de ferro corroído.

Quando o Oceanauta está no fundo do mar, ele sente falta de terra firme. Quando em terra firme, sente falta do fundo do mar. Sempre foi assim. Oceonauta.

(…)

O Oceanauta encontra-se agora sentado num café de shopping mall, muito satisfeito, como que sorrindo para toda a gente. Acabara de descobrir que a própria esposa terá uma criança humana. Filho do Oceonauta.

(…)

Como todos os homens que vêm do mar, também o Oceanauta arrisca-se às poesias. «Não há duas ondas iguais», ele diz consigo. «O mar, portanto, um gigante enigma sem solução.»

Ainda com muitas miragens movendo-se dentro de si, o Oceanauta, longe de casa, apaga a luz do abajur. Cai chuva no Atlântico, ele pensa, Atlântico de espumas brancas.

A solidão em que o ser Oceanauta vive, ele pensa pela última vez, antes de fechar os olhos.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

20 opiniões sobre “Oceanauta – trechinhos”

  1. Olá, Paulo!
    Não sei como isso passa, mas já desde 4 Julio (quando você publicou O escritor e o fantasma de si mesmo) eu acho os reflexos dos meus sentimentos e pensamentos em seus ensaios e cada novo só complementa, explica e resolve das minhas dúvidas. Acho que estou pronto escrever meu próprio ensaio nessa assunto. Mas enquanto só deixarei os comentários (como as principais teses da minha obra futura;))))))

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    1. Mi querida amiga, mi querida M.,

      A veces estoy con los ojos tan cerca del cuadro que tengo la impresión de estar parado, fijo. Pero luego doy dos pasos hacia atrás y me doy cuenta de que, en realidad, estaba ante un Monet, y que la tierra firme era un mar de olas — olas que van y vienen. Como la melancolía, como el Oceanauta, como todo en la vida.

      Cuenta conmigo, siempre.

      P.

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