Oceanauta – trechinhos

Depois de muito tempo no fundo do mar, o coração do Oceanauta é quase tão frio quanto gelo. Ao chegar à superfície, exausto, procura uma casa de banho. O Oceanauta mija, sem nenhum pensamento específico à cabeça. «O sono é realmente importante», ele diz enquanto pressiona a descarga de metal.

Urinóis de ferro corroído.

Quando o Oceanauta está no fundo do mar, ele sente falta de terra firme. Quando em terra firme, sente falta do fundo do mar. Sempre foi assim. Oceonauta.

(…)

O Oceanauta encontra-se agora sentado num café de shopping mall, muito satisfeito, como que sorrindo para toda a gente. Acabara de descobrir que a própria esposa terá uma criança humana. Filho do Oceonauta.

(…)

Como todos os homens que vêm do mar, também o Oceanauta arrisca-se às poesias. «Não há duas ondas iguais», ele diz consigo. «O mar, portanto, um gigante enigma sem solução.»

Ainda com muitas miragens movendo-se dentro de si, o Oceanauta, longe de casa, apaga a luz do abajur. Cai chuva no Atlântico, ele pensa, Atlântico de espumas brancas.

A solidão em que o ser Oceanauta vive, ele pensa pela última vez, antes de fechar os olhos.

— P. R. Cunha

20 thoughts on “Oceanauta – trechinhos

  1. P.R., teu texto me lembrou uma das poesias mais lindas que já li na vida: O Norte Secreto dos Argonautas Gregos.

    Foste sublime.

    Um beijo!

  2. Olá, Paulo!
    Não sei como isso passa, mas já desde 4 Julio (quando você publicou O escritor e o fantasma de si mesmo) eu acho os reflexos dos meus sentimentos e pensamentos em seus ensaios e cada novo só complementa, explica e resolve das minhas dúvidas. Acho que estou pronto escrever meu próprio ensaio nessa assunto. Mas enquanto só deixarei os comentários (como as principais teses da minha obra futura;))))))

    1. Lena,

      Fico cá muito contente em saber que minhas divagações despretensiosas instigaram-lhe a escrever as suas próprias. Lerei cada comentário e prometo tentar respondê-los com parcimônia.

      Увидимся!

  3. Concordo com Miau do Leão, que “O mundo está cheio de oceanautas”. Direi mais, frequentamante eu me sinto como um Oceanauta: estou bem e feliz, onde eu não estou.

    1. Mi querida amiga, mi querida M.,

      A veces estoy con los ojos tan cerca del cuadro que tengo la impresión de estar parado, fijo. Pero luego doy dos pasos hacia atrás y me doy cuenta de que, en realidad, estaba ante un Monet, y que la tierra firme era un mar de olas — olas que van y vienen. Como la melancolía, como el Oceanauta, como todo en la vida.

      Cuenta conmigo, siempre.

      P.

      1. Maravilloso y genial, como tú, mi querido P.
        Muchísimas gracias por tu apoyo, tus letras, tu arte, tu persona.
        Tú también puedes contar conmigo
        Un abrazo enorme desde esta mi pequeña isla de entropía, no diré infinita pero casi

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