Oceanauta – trechinhos

Depois de muito tempo no fundo do mar, o coração do Oceanauta é quase tão frio quanto gelo. Ao chegar à superfície, exausto, procura uma casa de banho. O Oceanauta mija, sem nenhum pensamento específico à cabeça. «O sono é realmente importante», ele diz enquanto pressiona a descarga de metal.

Urinóis de ferro corroído.

Quando o Oceanauta está no fundo do mar, ele sente falta de terra firme. Quando em terra firme, sente falta do fundo do mar. Sempre foi assim. Oceonauta.

(…)

O Oceanauta encontra-se agora sentado num café de shopping mall, muito satisfeito, como que sorrindo para toda a gente. Acabara de descobrir que a própria esposa terá uma criança humana. Filho do Oceonauta.

(…)

Como todos os homens que vêm do mar, também o Oceanauta arrisca-se às poesias. «Não há duas ondas iguais», ele diz consigo. «O mar, portanto, um gigante enigma sem solução.»

Ainda com muitas miragens movendo-se dentro de si, o Oceanauta, longe de casa, apaga a luz do abajur. Cai chuva no Atlântico, ele pensa, Atlântico de espumas brancas.

A solidão em que o ser Oceanauta vive, ele pensa pela última vez, antes de fechar os olhos.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

20 opiniões sobre “Oceanauta – trechinhos”

  1. Olá, Paulo!
    Não sei como isso passa, mas já desde 4 Julio (quando você publicou O escritor e o fantasma de si mesmo) eu acho os reflexos dos meus sentimentos e pensamentos em seus ensaios e cada novo só complementa, explica e resolve das minhas dúvidas. Acho que estou pronto escrever meu próprio ensaio nessa assunto. Mas enquanto só deixarei os comentários (como as principais teses da minha obra futura;))))))

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    1. Mi querida amiga, mi querida M.,

      A veces estoy con los ojos tan cerca del cuadro que tengo la impresión de estar parado, fijo. Pero luego doy dos pasos hacia atrás y me doy cuenta de que, en realidad, estaba ante un Monet, y que la tierra firme era un mar de olas — olas que van y vienen. Como la melancolía, como el Oceanauta, como todo en la vida.

      Cuenta conmigo, siempre.

      P.

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