«And one more for the road», a solitude etílica

Na última sexta-feira cheguei ao fundo do poço — isto se levarmos em conta os parâmetros de dignidade do Stanislaw Ponte Preta. Quer dizer: fui ao bar sozinho.

A verdade é que poucas coisas na vida são mais românticas/literárias/idealizadas do que ir algures para tomar um trago com a própria solidão.

(O porteiro do meu prédio, ao me ver sair, espantou-se com o fato cinza e com o chapéu: estás parecido com o Frank Sinatra, ele disse. Não precisaria lembrar aos leitores que estamos em pleno século vinte e um. Então este rapaz que vos escreve, que mal chegara aos trinta e poucos, sai para encher a cara com trajes à moda gângster siciliano. Excêntrico…)

Minha ideia, além de, naturalmente, entornar os copinhos, era quem sabe arrumar um canto para rabiscar qualquer coisa sobre a glamourização da escrita. O tipo que pensa: só escrevo quando conseguir uma boa escrivaninha, só escrevo quando a temperatura estiver amena, após o chá, se vistas para o oceano, quando comprar um computador melhor, ao som do jazz, se cadeira com almofadinhas, ao jardim, ou quando o silêncio for absoluto, ou depois de fazer meu jogging, ou com a caneta-fonte de dois mil dinheiros. As exigências que se acumulam do lado de fora. Enquanto a página permanece vazia.

Estava, portanto, num bar e havia pedido uma dose de uísque, e fiz o sinal de dois com os dedos, como faziam os alternativos dos 1960. Dois cubos de gelo, eu disse para a atendente. Ela tinha um dragão estranho tatuado no pescoço — só dava para ver a cabeça e a língua a cuspir fogo.

The Cranberries no sistema de som.

Quando me virei para pegar o copo sobre o balcão, percebi que um amigo acabara de se sentar a uma mesa à esquerda. Não fui falar com ele. A ideia era beber meu uísque em paz, com a minha roupa de Frank Sinatra, com o meu bloquinho de notas, com os meus pensamentos sobre a glamourização da escrita, com o meu fracasso. Mas de vez em quando olhava de soslaio para o conhecido: tinha a cabeça apoiada no braço, comportava-se como se estivesse à espera de alguém.

Alguém que nunca chegou.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

26 opiniões sobre “«And one more for the road», a solitude etílica”

      1. P.R.

        Ainda bem, a minha amiga somos melhores amigas por algumas razões.

        Quando às eletro-cartas, conforme te disse, era para saber se andavas bem, tenho visto a tua actividade por aqui e falamos bem por comentarios, por isso, parto do principio que sim. Podemos dar por cerrada a nossa correspondência.

        Desejo-te tudo de bom, e que te corra bem com o lançamento do livro, mereces, estás a fazer um enorme esforço e dedicação a ele.

        Eu por aqui, tenho sonhos para pintar… de outras pessoas e de novos lugares. Vamos comentando 😚

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  1. Eu já apaguei da minha vida qualquer exigência em relação à escrita. Já sei que não adianta sentar na minha mesa cercada de tintas, uma janela diante da mesa que dá pras plantas e pra luz, não adianta passar café, não adianta glamourizar. Vai acontecer no meio duma música enquanto eu lavo louça, vai acontecer no meio de um outro texto, vai acontecer enquanto vou pagar contas. Só preciso estar munida de um moleskine ou o bloco de notas do celular. Mas estar Frank Sinatra, num bar e The Cramberries de fundo é muito chique e simples tb…É chique e é simples.

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    1. Brinco de Pérola,

      Recentemente adquiri um RoyalPad — que, apesar do sufixo moderninho, é de celulose; com 300 folhas pautadas, formato 150 x 210 mm, papel especial 70g/m² — cujo encarte diz num imperativo categórico: teve uma ideia brilhante?, escreva!

      É com ele que ando para-cima-e-para-baixo. Porque, como bem descreveste, as ideias vêm de várias partes, em vários tipos.

      Gostava de acrescentar ainda que levo comigo o RoyalPad se estou Frank Sinatra ou em trajes civis.

      Obrigado por vangogherizar (minha queda por nomes adjetivados) este sítio web.

      Abraços,

      P.

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  2. Imagine ir a um bar com uma amiga e, logo no início, ela reclamar que você não se comporta mais como um passarinho em sua gaiola, que te acha anormal, que isso é frustrante e ir embora. Continuar sozinho no bar pode ser um grande presente. Quem suporta o próprio vazio ganha liberdade e espaço. A conexão só vale a pena se for engrandecedora. Parabéns pelo texto P.R.!

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    1. Debbie,

      A minha juventude imprudente ensinou-me que há poucas coisas na vida que não nos decepcionam… Bons livros e um copinho etílico estão, definitivamente, nessa seleta lista.

      Os seres humanos, por mais que um dia possam até mesmo nos representar meio que tudo, vêm-e-vão; tais e quais as ondas marítimas.

      Mas chega de azedume.

      Mando-lhe minhas calorosas saudações,

      P.

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  3. “comportava-se como se estivesse à espera de alguém.
    Alguém que nunca chegou”. Essa frase me faz pensar sobre mim mesmo, como eu me imagino nos outros lugares, outras pessoas queridas ao lado de mim. Estou feliz, setisfeito da minha vida, e meus sonhos não são concretos, isso não é desejo mudar minha vida, mas é como ligeiro sentimento da solidão e saudade das outras vidas (onde já vivi (pode ser , na vida anterior), ou pudesse viver (em mundo paralelo).

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    1. Lena,

      Talvez esse desconforto, digamos assim, venha do fato de termos sempre muitas escolhas. E quando escolhemos determinada situação, deixamos também de escolher milhares e milhares de outras. Mas o Zygmunt Bauman explica tais ansiedades bem melhor do que eu.

      O importante é que ainda estamos a respirar.

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  4. Talvez “o alguém” tenha chegado depois do Frank Sinatra sair…talvez o Frank Sinatra se tenha ido sentar junto do amigo ou vice-versa e feito companhia um ao outro….talvez, no meio dos whiskys alguém tenha desviado o chapéu de gangster…talvez o dragão tenha saltado da tatuagem e fugido/voado porta fora… …talvez até o som dos Cranberries tenha dado lugar ao “strangers in the night” em homenagem ao Frank Sinatra…
    Deliciam-me estas histórias com detalhes “à escritor”, em que o fim pode ser apenas nosso!

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    1. Dulce,

      Como da praxe, compreendeste tudo.

      A leitura de um determinado livro aperta o gatilho nas sinapses daquele que também deseja escrever, e desse processo surge uma nova estória. Estória cujos meandros serão interpretados por outros leitores, cada um com a própria metamorfose. Autoria compartilhada, se preferir.

      Fico contente com a tua volta.

      Abraços,

      P.

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  5. No hay ningún contrasentido mientras se busca…
    Todo nos parece menos bello.
    La espera es dura, y las musas sobrevuelan el bar…

    Y tú, despistándolas,
    disfrazado a lo Frank Sinatra… no tienes piedad de ellas…
    Tienes que invitarlas a una copa, Paulo.
    Cuídate bueno…!

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