Escritores solteiros casam-se com a própria obra

Há poucos meses participei de uma entrevista de emprego em que a pessoa responsável pela seleção dos candidatos me dissera: a nossa empresa é uma amante muito exigente. Essa frase ficou na minha cabeça.

Escrever livro é como estar num relacionamento — há períodos incríveis em que autor e narrativa parecem feitos um para o outro, depois brigam, dormem em camas separadas, sentem muita raiva, saem para jantar, pedem desculpas, dormem juntos novamente etcétera.

Para Franz Kafka, escrever era solidão absoluta, a descida ao frio poço de si mesmo. Não é difícil, portanto, compreender os motivos de o autor de A metamorfose ter confessado várias vezes ao amigo Max Brod que o casamento à moda antiga de certeza lhe tiraria a ociosidade da escrita. Por fim, viu-se diante de um impasse: ficar com a esposa de papel ou contrair matrimônio com a solícita Felice Bauer. E toda a gente sabe o que ele escolhera.

Escritores que precisam do silêncio, do vazio, que não aturariam nenhuma voz atrás dos ombros a lhe dar pitacos sobre esta ou aquela cena, «este personagem não me cativou», diz o cônjuge, «e se você fosse um bocadinho menos pessimista», pergunta a noiva.

Jane Austen nunca se casou, Emily Dickinson tampouco, Henry Thoreau e Walt Whitman também não, Louisa May Alcott dizia preferir remar a própria canoa — sozinha.

Hijos sin hijos, diria o Enrique Vila-Matas. Escritores que decidiram pela solteirice humana, porque a literatura, como se sabe, é uma amante muito exigente.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

32 opiniões sobre “Escritores solteiros casam-se com a própria obra”

  1. Escrever é quase sempre um ato solitário em que o escritor, fascinado com a palavra, prefere a sua companhia a qualquer outra coisa ou pessoa. Para muitos escritores a solidão e quietude são qualidades indispensáveis, quase como parte da ferramenta necessária para a escrita. Outros conseguem escrever num café, rodeados de pessoas e de barulho. O importante é que cada escritor ache a maneira melhor de se dedicar à dama exigente, por nome, literatura!
    Mas solitário ou casado, chega o momento em que o escritor comunica com os seus leitores. Eis o poder da palavra que, ao fim, sempre nos une.
    Por isso, antecipo com muito gosto o momento do encontro com o P. R. Cunha, cade vez que as tuas palavras aparecem no meu ecrã!

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    1. Casar-se com a literatura e transmitir os genes desse relacionamento através das palavrinhas…

      Obrigado por sempre enriquecer este humilde electro-sítio com os teus comentários, Emanuel. És mesmo um ser humano adorável.

      Abraços,

      P.

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  2. Interessante! Estava a pensar sobre isso por esse dias… Lembrei-me de Quintana, que também nunca casou, mas tinha nove ou mais musas inspiradoras e outros escritores que também não casaram e não casarão, mas não conseguem deixar suas “musas conceituais” (risos, inventei isso agora) e os meus pensamentos sobre isso foram longe, como de costume. A solidão do Escritor me dói, P., mesmo compreendendo a necessidade do isolamento…

    Beijo,
    G.

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    1. G.,

      Vai sempre longe!, isso não me incomoda.

      Vê: gosto de comparar a solidão do escritor com a o abrir de uma janela numa noite de inverno: de início, entra o vento gelado, nossos olhos lacrimejam um bocadinho, as pupilas tentam se acostumar à claridade do luar. Depois, seguramos uma caneca com chocolate quente e o frio já não assusta tanto.

      No mais, pode-se sempre fechar a janela novamente, e recolher-se ao confortável cobertor de lã.

      Beijos,

      P.

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      1. P., sim, de fato, é possível fechar a janela, e recolher-se ao cobertor de lã, mas o problema é quando a janela emperra e o cobertor fica meio curto e o Escritor acostuma com o frio do vazio… Essa conversa iria longe, mas fico por aqui. Beijo 🙂

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  3. Muito bom!! Quando leio me sinto na companhia do autor. Meus estudos nunca me impediram de ter namorados. Mas as relações naturalmente se desenham distantes dada a prioridade aos romances com as letras. Na vida fazemos escolhas. Que cada um possa ficar com o que dá mais significado à sua existência. Cores para o coração!!

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  4. Excelente! Gosto muito de te ler, P.R. Cunha…. mais um escrito que nos puxa com a força gravitacional de um planeta.

    Quanto ao dito de Vila-Matas: hijos sin hijos de veras?
    Criamos os filhos para o mundo. O que são os escritos senão produções para o Outro, com efeitos imprevisíveis? Criações que se desenvolvem para além do criador.

    Apenas uma reflexão (;

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    1. Obrigado pelas reflexões, Nausikaa.

      Vila-Matas estava a fazer uma metáfora elegante da solteirice humana, filhos sem filhos (de carne e osso, no caso). As obras literárias, de certeza, são também descendentes; e se forem tratadas com o devido esmero, duram séculos — eis a vaidade de muitos escritores, gerar um filhote de papel, um gravador que vai falar para o futuro distante. Eco da própria voz.

      Voz de fantasma.

      Beijos,

      P.

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  5. A vivência, a perspicácia, os detalhes do quase nada são ferramentas que o escritor utiliza, fazendo com que, por exemplo, ele escreva 350 crônicas sobre uma mesma pequenina cidade do interior. O casamento também pode ser feito com esses pequenos detalhes, sem afastar a ideia do outro casamento, o real, que vai exigir outros atributos. Evaldo

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    1. Caro Evaldo,

      Casam-se com humanos, com literaturas, com detalhes… E cada relacionamento vai, de fato, exigir atributos específicos. Eu cá admiro à beça aqueles que conseguem fazer malabarismo com os matrimônios.

      Ainda estou a aprender, pois não.

      Abraços e até à próxima.

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  6. Apesar que gosto da minha vida, muitas vezes, gostaria de ser um escritor, qual vive sozinho, escreva na sua escrivaninha, fica em tranquilidade só com os seus pensamentos.
    Mas, como sabemos, “literatura é uma amante muito exigente”, enquanto eu não estou constante no meus deseijos. E, com certeza, não prefiro “remar a própria canoa — sozinha”.

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    1. Querida Lena,

      Escrever é um microcosmo da vida: há belezas, há dores, há passagens, há lembranças, há perdas, há ganhos — até ao derradeiro fim. E a jornada vale muito a pena, principalmente depois de lidarmos com alguns demônios imaginários.

      P. S.: a solidão, por vezes, é apenas um estado temporário.

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  7. De los autores que nombras por ej: Franz Kafka parece ser que era un homosexual reprimido, según los últimos estudios sobre su vida.
    Lo mismo pasa con Jane Austen.
    Emily Dickinson comprometió a su hermano por un tema de incesto,
    para que se casara con su amiga/amante Susan Huntington Gilbert ahora cuñada.
    Henry D. Thoreau o Walt Whitman también homosexuales declarados gozaban de la compañía masculina bien detallado o sugerido en sus escritos/biografía.
    Louisa May Alcott parece que tb.
    Enrique Vila-Matas no tengo ni idea, sólo sé que escribe sobre el tema.

    Está claro que en la época en la que vivieron la mayoría de todos ellos
    no se podían casar con sus amantes, -como hoy en día se hace muy dignamente-.
    De manera que disiento de tu escrito…
    Todo ser afectivo tiene cerca o busca siempre a alguien, lo que se traduce después en familia y otros por las exigencias de tu tiempo no pudieron…
    En el fondo creo que las letras no están reñidas con tener pareja,
    sólo que algunos la perpetúan y otros florean…
    El ser y la escritura no son una isla.
    Saludos…!!

    Lucio

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    1. Lucio,

      Antes que nada, gracias por su comentario y por su visita. Es un gran honor recibir un mensaje de un poeta que tanto admiro. Confieso que sería más cómodo si pudiera responder a usted en portugués, pero yo haré todo lo posible.

      Bueno… Me gusta creer que siempre escribo literatura — incluso cuando escribo sobre mí mismo, o sobre «la realidad de las cosas». En una palabra: son versiones que vienen de mi imprevisible cabeza.

      Y, a pesar de tantos estudios sobre los escritores antiguos, prefiero adoptar una postura más relajada, digamos así.

      Por ejemplo: buscar a alguien y conseguir convivir con ese alguien me parecen cosas distintas. Veamos el caso de Kafka. Si era o no homosexual, creo que nunca habría conseguido quedarse con otra persona — al menos en un sentido «sano» (que también es muy subjetivo) de una unión entre seres humanos. Era un hombre difícil, con trastornos mentales, fobia de ruidos, etc.

      Pero perciba que estamos lidiando con los fantasmas, conversando con los muertos.

      Y, repito, por más que consigamos estudiar la vida de esas personas, jamás podríamos estar seguros de cómo reaccionarían a nuestra era moderna. La historia no permite el «y si». De modo que Kafka, Austen, Dickinson, Thoreau, Whitman, L. M. Alcott tuvieron dificultades para relacionarse con otras personas y no se casaron — a causa de la literatura, o debido a trastornos internos, o a causa de la sociedad en que estaban insertados.

      Mi breve ficción era sobre eso. Y como me gusta exagerar, puse la culpa en la literatura — a la diversión.

      Al final y al cabo hay varias formas de vivir (y de escribir); y eso es maravilloso, ¿no?

      Un fuerte abrazo brasileño y me disculpo de antemano si escribí algo mal,

      P.

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      1. Lo primero…, sus palabras tanto en portugués como en castellano son siempre maravillosas. Yo en cambio, soy un escritor que acaba de empezar en esto de la red
        y le encontré por casualidad en el muro y le he ido siguiendo/leyendo
        porque veo cosas interesantes…
        En cuanto a su pequeña ficción que nos ocupa, sólo indicarle que las letras
        no están reñidas con la pareja, e intentaba apoyarlo con la condición de las preferencias, en cuanto al sexo de dichos autores. En ningún caso corregirle,
        sólo opinar. No he tenido la menor intención de alterar su criterio ni su literatura
        sobre la realidad de las cosas. Cada cabeza es un mundo.
        Y le pido disculpas, por atreverme de esta manera tan inoportuna a incordiar
        sobre su parecer de cualquier tipo. Me he equivocado y le pido que lo entienda…
        Le repito que soy un principiante, apenas escribo medio regular (utilizo corrector
        y traductor en la mayoría de los casos, entre otras cosas…), y no creo que deba disculparse ante mí por nada. Cada uno escribe como quiere y lo que le apetece,
        y la interpretación es tan libre como la realidad… De verdad que lo siento…
        Un fuerte abrazo murciano. Y de verdad… sólo quería mostrar también mi opinión sobre dichos autores… Pero me he pasado de la raya…
        En un futuro tendré más cuidado con lo que diga…
        Espero no haberle molestado mucho, porque no se lo merece, ni era mi intención… Hasta pronto… nos vemos.
        Lucio.

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        1. Lucio,

          Esto de la red tiene un problema difícil de eludir: cuando escribimos no podemos escuchar las entonaciones, no podemos ver las expresiones faciales. Su comentario fue uno de los más interesantes que recibí. Y no lo estoy diciendo para contemporizar. Me encanta ser desafiado, en un sentido «intelectual» (lo que signifique).

          Realmente me gusta hablar con personas que no necesariamente están de acuerdo conmigo. Significa que aprenderé algo nuevo, o escucharé diferentes puntos de vista. ¡Eso es fascinante!

          Es por eso también que no necesita disculparse. No se ha pasado de la raya, de ninguna manera. Como usted bien dijo: cada uno escribe como quiere y lo que le apetece, y la interpretación es tan libre como la realidad.

          Le agradezco muchísimo por sus palabras, Lucio. Termino este mensaje con un pedido: no hay que tener cuidado al escribirme. Escriba de la forma que usted desea, espontáneamente. Y entonces yo podré aprender aún más.

          ¡Nos vemos, amigo!

          P.

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  8. Aos escritores (que eu não sou), sugiro:
    Passem as horas que precisarem com a vossa amante escrita e partilhem tudo com ela….mas, por favor:
    …a pele é quente…um aconchego na cama é único…uma mão dada com ideias partilhadas é sublime…um silêncio acompanhado é conforto da alma…um olhar para a velhice a dois é paz…

    E mais não preciso dizer!

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