O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.

16 thoughts on “O escritor e o fantasma de si mesmo*

    1. Querida Bia,

      Respondo-te com a pulga atrás da orelha:

      Parece-me que a escrita é mesmo uma via de mão dupla; se causa angústias ou ameniza o sentimento humano… Bom, vai depender da velocidade do próprio automóvel.

      Um antigo certa vez escreveu: ruim se escrevo, mato-me se não escrevo.

      E talvez isso diga um bocado a respeito.

      Abraços tranquilos,

      P.

          1. Hahaha não sei se é sofisticada, mas é verdadeira! Andei lado a lado com minhas angústias e medos, e depois escrevi sobre eles. E, ao escrever, vieram novas questões e inseguranças. Seria possível escrever sem duvidar de cada palavra? Sem questionar se é bom o suficiente? Ai ai ai, está longe de ser fácil. Ouso dizer que quem escolhe ser escritor não faz ideia da encrenca em que se meteu!

            1. As metamorfoses da escrita, Bia. Ovídio estava certo. E gosto imenso da imagem do escrever como gênese de novos questionamentos. Um looping eterno, duvidoso, pois não.

              E a encrenca, pelos vistos, é irreversível.

              Abraços.

  1. Chamarei de metáfora da decepção o que captei da leitura do seu post e concluo…faz parte das Letras que saem da escrita das mãos dos que gostam de escrever sentimentos assim. Tal qual disse Vargas Llosa “escrevemos para preencher vazios”.

  2. P.R. Não sei se vou falhar novamente… mas vou tentar.

    Acho que existe uma possibilidade de coexistencia, é dificil, mas essa possivel. Nao precisa de ser 8 ou 80.

    Eu cá pergunto-me o mesmo, se viver a realidade ou a criatividade, facto é, ja dei por mim numa fusão das duas e sabes? Senti-me plena.

    Beijo

    1. A beleza do equilibrista: estar lá e cá, cai-não-cai.

      Somos, de repente, este conjunto: por vezes torto, por vezes balanceado — de autoficções.

      (Nunca falhas…)

  3. P.R.,

    E, muitas vezes, descobrimos os nossos mistérios insondáveis ao acumular notas sobre os outros…. Não é tarefa das mais fáceis escavar a dor de um escritor…

    Beijo,
    G.

  4. Chegamos no ponto zero, onde eu começei refletir por que não escrevo, por que não sou “escritor” (não quero dizer, que eu podia ser escritor verdadeiro , só digo sobre meu desijo escrever na infância e juventude). Exceto, falta de constância (como já disse), preguiça, falta de certeza em sucesso e com isso desejo do reconhecimento, acho que estava com medo “ser humano constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico”. Então, sou eu: esposa, mãe, “nãoescritor” (sou contador). Tudo está bem, estou tranquila, com boa saúde psíquica, fiz escolha correta… mas as vezes eu sinto o fantasma daquele escritor (qual eu podia ser) está atrás do meu ombro, ele me diz, que fujo da minha própria realidade.

    1. Lena,

      Quem sabe levar também uma espécie de — na falta de melhor termo — vida paralela? Uma vida em que você pudesse escrever sem esperar nada em troca. Uma vida antes de dormir (algumas horinhas). E tudo pode correr bem em ambas: ter filhos, tranquilidade, boa saúde, numa; e entregar-se às palavras imaginárias noutra.

      Assim, muitos fantasmas seriam finalmente exorcizados.

      Forte abraço e obrigado pelos comentários.

      Пока-пока, дорогая.

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