O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

16 opiniões sobre “O escritor e o fantasma de si mesmo*”

    1. Querida Bia,

      Respondo-te com a pulga atrás da orelha:

      Parece-me que a escrita é mesmo uma via de mão dupla; se causa angústias ou ameniza o sentimento humano… Bom, vai depender da velocidade do próprio automóvel.

      Um antigo certa vez escreveu: ruim se escrevo, mato-me se não escrevo.

      E talvez isso diga um bocado a respeito.

      Abraços tranquilos,

      P.

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          1. Hahaha não sei se é sofisticada, mas é verdadeira! Andei lado a lado com minhas angústias e medos, e depois escrevi sobre eles. E, ao escrever, vieram novas questões e inseguranças. Seria possível escrever sem duvidar de cada palavra? Sem questionar se é bom o suficiente? Ai ai ai, está longe de ser fácil. Ouso dizer que quem escolhe ser escritor não faz ideia da encrenca em que se meteu!

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            1. As metamorfoses da escrita, Bia. Ovídio estava certo. E gosto imenso da imagem do escrever como gênese de novos questionamentos. Um looping eterno, duvidoso, pois não.

              E a encrenca, pelos vistos, é irreversível.

              Abraços.

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  1. P.R. Não sei se vou falhar novamente… mas vou tentar.

    Acho que existe uma possibilidade de coexistencia, é dificil, mas essa possivel. Nao precisa de ser 8 ou 80.

    Eu cá pergunto-me o mesmo, se viver a realidade ou a criatividade, facto é, ja dei por mim numa fusão das duas e sabes? Senti-me plena.

    Beijo

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  2. P.R.,

    E, muitas vezes, descobrimos os nossos mistérios insondáveis ao acumular notas sobre os outros…. Não é tarefa das mais fáceis escavar a dor de um escritor…

    Beijo,
    G.

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  3. Chegamos no ponto zero, onde eu começei refletir por que não escrevo, por que não sou “escritor” (não quero dizer, que eu podia ser escritor verdadeiro , só digo sobre meu desijo escrever na infância e juventude). Exceto, falta de constância (como já disse), preguiça, falta de certeza em sucesso e com isso desejo do reconhecimento, acho que estava com medo “ser humano constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico”. Então, sou eu: esposa, mãe, “nãoescritor” (sou contador). Tudo está bem, estou tranquila, com boa saúde psíquica, fiz escolha correta… mas as vezes eu sinto o fantasma daquele escritor (qual eu podia ser) está atrás do meu ombro, ele me diz, que fujo da minha própria realidade.

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    1. Lena,

      Quem sabe levar também uma espécie de — na falta de melhor termo — vida paralela? Uma vida em que você pudesse escrever sem esperar nada em troca. Uma vida antes de dormir (algumas horinhas). E tudo pode correr bem em ambas: ter filhos, tranquilidade, boa saúde, numa; e entregar-se às palavras imaginárias noutra.

      Assim, muitos fantasmas seriam finalmente exorcizados.

      Forte abraço e obrigado pelos comentários.

      Пока-пока, дорогая.

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