Sra. Carmen & Grand Hotel Abyss (sobre escrever livros estranhos)

Na época eu estava a passar por dificuldades financeiras, como facilmente se compreende, e a sra. Carmen ficou sabendo e me disse assim: posso te ajudar, criatura, mas com uma condição. A sra. Carmen, para quem não sabe, tem noventa e seis anos, dama grisalha, capciosa, imenso apetite sexual. Precisas apenas de permanecer um tempinho comigo, todos os dias, ela explicou, coisa de duas ou três horas, à sala do meu apartamento, eu te observo, podes ler também se quiseres. Mas, sra. Carmen… — eu disse. E a sra. Carmen fez «Shhhhh!, Shhhhh!!!!, Shhhhh!!!!!», é pegar ou largar. Eu peguei. Durante dois meses fui todos os dias (menos aos domingos) ao apartamento da centenária, carregava meus livros, escrevia enquanto ela ficava a me olhar e a dizer: menino bonito, rapaz agradável, pedaço de mau caminho, pão. Por vezes a sra. Carmen pegava no sono de um jeito engraçado, toda oblíqua na poltrona verde e eu bem achava que ela tinha batido as botas. Aquilo me dava nos nervos, falo a sério. Eu então me aproximava de mansinho e ficava a esperar que a barriga dela fizesse algum movimento. Vai, barriga, move. E se a coisa demorasse a se mover eu balançava os ombros da sra. Carmen: ei, sra. Carmen, está a dormir? Ela se estremecia e os lábios respondiam com um sorriso maroto: ai, meu pãozinho, menino bonito, podes beijar-me se quiseres.

(…)

O Stuart Jeffries contou-me que havia um desentendimento entre os filósofos György Lukács e Theodor Adorno. Lukács dizia que a Escola de Frankfurt — da qual Adorno fazia parte — não dava conta de mudar na prática aquilo que criticava em teorias. Os membros desse movimento, escreve Lukács, fixaram residência no Grande Hotel Abismo: bela morada equipada com todo o conforto, à beira de um precipício, o da vacuidade, da absurdidade.

Quando começo a escrever um livro estranho, acho que também me escondo num desses hotéis, para refletir sobre os sofrimentos do mundo a uma distância segura. E isso deve fazer o esqueleto do sr. Lukács se remoer todo, a sete palmos abaixo de terra.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

8 opiniões sobre “Sra. Carmen & Grand Hotel Abyss (sobre escrever livros estranhos)”

  1. P. R., ainda bem que estou sozinha aqui, porque tu não imagina as risadas que eu dei dessa Dona Carmen (que gracinha!). Que este Grande Hotel Abismo te proporcione muitos encontros com o humano e o absurdo deste e de outros mundos. Beijos! ❤

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    1. Carminha é mesmo adorável.

      E, bem, como fiz reserva com bastante antecedência, consegui quarto agradável — varanda para o precipício. Vejamos quem eu encontro ao terraço do hotel.

      Beijos, Poetisa.

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  2. Adorei! Bem, sobre o primeiro texto dá vontade de querer saber mais sobre essa intrigante D. Carmen, imagino-a como sendo-a atriz em que ja tivesse fora do seu tempo. Não? É intrigante.
    O segundo texto não deixa de o ser também. Adoro esses eternos debates entre filosofos, cada um com suas razões e crenças.
    Relativamente ao hotel, acho, que todos o procuramos, e, permite-me concordar com o comentário acima mencionado.
    Boas reflexões 😉

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    1. Irina,

      Acho estimulante quando monto personagens que numa altura ganham vida própria. Carmem, ex-atriz de teatro, a lidar com o esquecimento de si e da arte que praticara durante tantos anos? Eis um currículo coerente, pois não…

      Aos filósofos — com as próprias razões & crenças — diria para não se aborrecerem tanto. Porque as verdades de hoje, amiúde, se transformam nas mentiras de amanhã.

      P. S.: não só os comentários da Dulce me são irresistíveis, como também a prosa e a poesia que ela escreve; principalmente quando ilustradas com fotografias autorais.

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