Silêncio falado

Para a Irina M.

Londres, 18 de abril de 1930. 20h45. Boa parte dos britânicos prepara-se para escutar o boletim noturno da BBC. Famílias inteiras estão reunidas ao redor do rádio enquanto uma voz granulada, grave, porém amistosa, anuncia: «Boa noite. Hoje é uma ótima sexta-feira, não temos notícias». Então a BBC simplesmente preferiu tocar concertos de música clássica. O dia sem notícias. Parece que há 88 anos não era vergonhoso admitir isto, que o mundo por vezes não tem mesmo nada a dizer. E o vazio podia ser preenchido com o tilintar de um piano, com as cordas de um violoncelo, com o sopro de um oboé.

O vazio. Costumo guardar meus livros mais antigos dentro de um baú. Trata-se de uma lustrosa caixa de madeira com 32 centímetros de altura, 42 de comprimento e 50 de largura. Hoje de manhãzinha decidi remover todas essas relíquias a fim de averiguar se as traças alimentavam-se dos meus velhos companheiros de letras. Olhei para o baú e pensei: agora este baú está vazio. Mas, em verdade, o baú nunca esteve vazio — há sempre vestígios de poeira, vapor d’água, moléculas de ar, fótons, eléctrons, partículas elementares. Apenas não conseguimos enxergá-los. 

O vazio absoluto, portanto, não existe; assim como um dia em que nada acontece. Mas, ao fim e ao cabo, pode-se filtrar a poeira, eliminar o máximo de ruído externo. E talvez, quem sabe, consigamos qualquer coisa parecida com os «Quatro Minutos e Trinta e Três Segundos» do sr. John Cage: aquele silêncio permeado pelos movimentos do próprio compositor, o discreto metrônomo de fundo, e um comedido aplauso, se estivermos em público. 

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

13 opiniões sobre “Silêncio falado”

  1. A melodia de uma sinfonia, acho que foi algo que os espectadores da britânicos, em 1930 por volta das 20.45h, não deveriam estar à espera, foi algo que os surpreendeu, inesperado com certeza. Porém, o facto de não haver noticias, e elas, terem sido substituídas por algo musical é maravilhoso. É exactamente isso, o preenchimento do vazio. O som que não se ouve, as partículas que não se vêem, a performance que não acontece, no fundo, está a acontecer, por vezes não é visível aos nossos sentidos mas está, é um facto.

    Adorei a comparação ao «Quatro Minutos e Trinta e Três Segundos» do sr. John Cage, não sendo grande apreciadora de arte conceptual, tem todo o sentido no texto.

    Fantástico e obrigado pela quebra de silêncio.

    Liked by 1 person

    1. Irina,

      Mr. John Cage certa vez disse que as canções modernas estão a ficar mecânicas demais. Sugeria aos músicos que não se importassem tanto com imperfeições — equívocos, se preferir —, pois dariam um aspecto orgânico ao tema. Acho isso muito bonito, e acredito que valha também à literatura, às artes plásticas etc. Talvez tenha sido esse o grande papel do Mr. Cage: ser o mensageiro, o enfadonho, aquele que não deixa toda a gente esquecer do silêncio, da importância de sermos humanos, desacelerar um bocadinho a roda industrial, que, pelos vistos, está a girar-nos para um futuro de microprocessadores com memória (des)integrada. Mas que sei eu…

      Liked by 1 person

      1. Se assim for, tiro o chapéu a Mr. John Cage, a busca pela perfeição impede de criar. O perfeccionismo é impossivel, quer dizer, impossivel não é, mas é desgastante e frustrante. Vai-se a ver no fundo, nunca esta perfeito.
        O outro dia, numa fase de zapping de youtube, dei com um conteúdo interessantíssimo, uma rapariga que se tornou genial a fazer coisas inúteis. E agora digo: “e esta hein?”

        Gostar

  2. Paulo, que deslumbrante meditação sobre a existência, dentro e fora do tempo.
    “O vazio absoluto, portanto, não existe,” disseste tu, e eu ajunto, “mas existe dentro da existência.”
    Espero que ainda possas encontrar alguma coisa de bom dentro do teu baú.
    Emanuel

    Liked by 1 person

    1. Emanuel,

      Facto: se lá fora o silêncio é de difícil alcance, resta-nos criá-lo cá dentro. O baú guardava surpresas interessantes — aos poucos, compartilho.

      Que os bons ventos canadenses continuem a te inspirar, meu amigo.

      Abraços,

      P.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s