Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

19 opiniões sobre “Excerto provisório”

  1. Ainda não passei por essa dor, já vi quem tenha.

    Da forma como a expões, está uma descrição profunda do que provavelmente alguem que passe por essa experiência deve sentir. Julgo que sentiria o mesmo.

    Está muito bom o excerto.

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    1. Obrigado, Irina. Excerto escrito com aquela humilde pretensão de que de repente uma dor tremenda (perda do pai etc.) possa ser metamorfoseada em outras dores análogas. O desespero como parte — também — das constituições humanas.

      Não deve sair um livro muito optimista…

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  2. É uma passagem muito boa, bem escrita e trás nas linhas um relato forte, emocional e marcante. Mas é uma leitura difícil, nem todos conseguem entender, exige um certo nível de leitura. Porém, dependendo do público do qual lerá a sua obra vão gostar do que lerem. Me faz recordar a literatura passada, um tanto quanto clássica e rústica nas palavras. Gosto também.

    E como anda indo o processo dessa obra da qual está a trabalhar?

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    1. Obrigado pelas considerações, Maria Vitoria — são-me de extrema importância.

      Foi certeira ao perceber as raízes antigas. Trata-se ainda de um trechinho seco, prévio, com muitas influências diretas (até demais…) dos filósofos do século 16 e 17 (Montaigne e Leibniz, principalmente).

      O processo está a caminhar com certa desenvoltura — ainda preciso, no entanto, organizar cerca de três mil notas que aos poucos transformar-se-ão em qualquer coisa parecida com isto a que chamam de livro. Estou, portanto, naquela prazerosa etapa de lapidações.

      Abraços!

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    1. Obrigado pela palavras incentivadoras, Poetisa.

      Vai chegar a altura (ela não se demora, inclusive) em que terei de escapulir por uns tempos — sempre faço isso quando começo um trabalho, como se diz, de fôlego. Meu trabalho de parto, se me permite uma comparação espirituosa. Enquanto isso, compartilho esses trechinhos inofensivos.

      Abraços!

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    1. Emanuel,

      Obrigado pelo carinho canadense da praxe. A mim me parece que o maior combustível para o ser humano que escreve é saber que existe alguém lá fora com ganas de lê-lo. E espero não te decepcionar.

      Forte abraço,

      P.

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  3. Eu não sei se este texto tem influências de filósofos antigos ou não. Não tenho conhecimentos a esse nível. Para mim ele fala de uma perda sentida na pele… de um pai que está sempre presente mesmo que para sempre ausente… das emoções que um jovem muito jovem sentiu e que agora, já adulto, procura entender e transmitir em palavras…talvez sublimar em palavras.
    Muito bem escritas, diga-se de verdade.
    Mas talvez o pai gostasse de ver que algumas das três mil e tal notas que vão ser trabalhadas e utilizadas no livro ainda em gestação, que algumas das notas a lapidar sejam leves… positivas… vividas com alegria… sem peso…optimistas…
    O pai merece isso e o filho ainda mais!
    Peço desculpa se escrevi o que não devia. Mas foi o que senti.

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    1. Tens toda a razão, Dulce.

      Inclusive, alegra-me o fato de as três mil e tantas notas estarem ainda embaralhadas, sem rumo definido; embrionárias. Porque o livro me acontece durante o caminho. Será qualquer coisa parecida com um exorcismo laico, o qual estou a adiar desde a minha última novela (Paraquedas – um estudo filosófico). Desta vez, tocar na ferida sem receios. E, naturalmente, a memória tem lá suas muitas gavetinhas com lembranças agradáveis. Mesmo que a empreitada se mostre uma jornada de ficção, com prazer e dor ilustrativos — apesar de baseados em fatos que poderiam acontecer com toda a gente (com este escriba, inclusive).

      Muito obrigado mesmo pelas considerações; guardá-las-ei no meu coração, para não me esquecer ao segurar a pena sobre o papel.

      Abraços,

      P.

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  4. Siempre me siento tan identificada con tus textos Paulo. No podría haberlo expresado mejor. La pérdida de un padre, un dolor tan infinito que te paraliza hasta el punto de no poder exteriorizarlo y somatizarlo con distintas enfermedades. Sin darnos cuenta de que, en realidad, lo que se rompió de alguna manera fue el corazón.

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    1. ¡Muy amable, Cris!

      «Sin darnos cuenta de que, en realidad, lo que se rompió de alguna manera fue el corazón.»

      Exactamente eso… Y a veces los dolores más profundos logran desanudar nuestros ojos. Inquietante, pero necesario.

      Un abrazo suave para ti, amiga.

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