Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Este electro-sítio, enfim, transformara-se num confortável armazém para as «notas que não estou a utilizar nas minhas obras com fins de sobrevivência». Noutros termos: há um excesso de produção que desemboca nestas represas etc. É porque o engenheiro constrói prédios, o médico receita medicamentos, o confeiteiro faz doces, o piloto de fórmula um pilota o fórmula um, e o escritor… Bem, o escritor precisa de escrever.

Costumo almoçar sozinho, em silêncio. Não chega a ser um silêncio de morte, como se diz, silêncio absoluto (como o da câmara anecoica dos Laboratórios Orfield*) — nunca é. Pois consigo ouvir os passos dos vizinhos, a conversa do eletricista ao telemóvel, o barulho da motocicleta, o som da minha mastigação, o tique-taque do relógio. Os relógios sempre me fascinaram, e entre uma e outra garfada fico a pensar no tempo que eles me mostram. Procuro me lembrar o que almocei ontem, um almoço que não é mais. Amanhã, um novo almoço, que ainda não é. Olho então para o meu prato quase vazio — tique-taque-tique-taque —, este almoço também já passou. De todos os tempos, o que eu mais aprecio é o cosmológico. Aquele breve infinito que nos transporta até às partículas elementares, através do qual viajamos bilhões e trilhões de anos enquanto aqui na Terra a noite mal começara. Um tempo que se assemelha àquele em que vive o escritor: tempo que isola, que suspende. Tempo a levar tempo. Tique-taque. Tempo que passa, que está a nos consumir a cada voltinha do ponteiro vermelho. Tique-taque. Tempo que um dia também nos levará para sempre. Tique-…

— P. R. Cunha


*A câmara anecoica (sem eco) dos Laboratórios Orfield em Minnesota é considerada o lugar mais silencioso do mundo, com um ruído de fundo negativo de -9.4 dBA. Steven Orfield, responsável pelo projeto, costuma desafiar os visitantes a ficarem mais de 45 minutos dentro da sala, no escuro: «Quanto mais silencioso o local, mais a nossa audição tenta se adaptar. A pessoa então começa a ouvir o batimento cardíaco, a atividade pulmonar, o estômago trabalhando. Dentro da câmara anecoica, você se torna o som».

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

34 opiniões sobre “Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios”

    1. Confesso que, por norma, costumo compreender o que leio, sem grandes dificuldades. Mas o que mais acho interessante na escrita de P.R.Cunha é que me obriga a fazer ginástica mental, tal é o raciocínio a que obriga, para compreender tamanha profundidade de reflexão. Parece que estou a ler algo de alguém que já viveu cem vidas e tem tantas histórias para contar. Mas gosto! É um exercício bom e eu gosto de desafios. Gostei desta visão profunda do tempo que nos obriga a ter tempo para o pensar e ver passar.

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      1. Você vai se apaixonar, principalmente por ser músico. É um livro que conta a história da música, do som, do silêncio, das pausas, assim como o tempo e a nossa vivência, cheio de ruídos, barulhos e harmonias. Ótimo fim de semana amigo!

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      1. Carinho recíproco, P.R., Paulo Renato, pierre, Paulo, Renato e todos os outros que moram aí! O incrível é que além dos teus textos maravilhosos, a qualidade dos comentários dos teus amigos não fica para trás… Como dizem os antigos: dá gosto de ler. 🙂

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  1. Cada día es el día
    y cada hora es la única hora de la vida,
    todo el ayer se fue en reminiscencia
    y el mañana no existe todavía.
    (Uslar Pietri, fragmento del poema “Día a día”)

    Escribí un post sobre la subjetividad del tiempo en el que ponía dos fragmentos de un poema de Uslar Pietri, además de mi aportación personal. Te dejo el enlace por si no lo habías leído: https://estrf.wordpress.com/2017/12/02/la-percepcion-del-tiempo-el-reloj-miente
    En cuanto al silencio, es verdad que siempre hay ruido alrededor, en el momento que se apaga la tele, la radio, el móvil, se cierran ventanas… parece pararse el mundo y se puede escuchar el silencio.
    Un abrazo.

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    1. Querida Estrella,

      Muchas gracias por el enlace. Tú tienes una sensibilidad cautivadora, amiga mía. Me encanta leer tus textos y tus comentarios. Un honor recibirte aquí.

      Estoy de acuerdo contigo: tenemos que apagar la tele, la radio el móvil (principalmente el móvil) si queremos escuchar un silencio aproximado. Pero a mí me parece también que sólo valoramos la quietud cuando allá afuera hace ruido. ¡Vale!, soy un ser humano contradictorio, a-veces-casi-siempre.

      Buen domingo.

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      1. ¿Y quién no es contradictorio? Creo que todos lo somos un poco, cuando hay ruido, añoramos el silencio y cuando hay demasiado silencio buscamos desesperadamente el ruido, quizá para no escuchar nuestros pensamientos más intimos.
        Buen domingo para ti también. Un abrazo.

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