Há alturas em que temos tudo à nossa disposição

Uma teoria é feita de repetições. Estudamos determinados fenômenos, dizemos: não estou a compreendê-los; tornamos a estudá-los até, quem sabe, chegarmos a um nível aceitável de incerteza(s). E pode ser que no meio do caminho o investigador descubra sítios onde nunca ninguém esteve — descobertas acidentais, portanto.

O Sol brilha porque fusões nucleares estão a acontecer dentro de si. Quanto mais luminosa uma estrela, mais reações ocorrem no próprio núcleo. Estrelas supermassivas têm vida mais curta do que as estrelas comuns pois a sua taxa de consumo de energia é muito maior. Imagem terrestre à guisa de ilustração: enorme camioneta que gasta grande quantidade de benzina, enquanto um pequenino Prius é econômico e silencioso. Vida de uma estrela = quantidade de combustível / taxa de consumo*. Massa do Sol (em massa estrelar): 1. Tempo (em anos): 10 bilhões. Tipo espectral: G2.

Casa de mamã, fechado em mim mesmo como um microcosmos que quer ser mundo por conta própria. Neste quarto de mocidade sob cujo teto li pela primeira vez o Bernhard — Árvores abatidas. Quando nos mudamos para cá, meu pai fizera questão de que a minha janela estivesse voltada para o poente. Meu menino é contemplativo, dissera. E eu tinha acabado de completar cinco anos.

O narrador deste electro-sítio pode agora permitir-se dizer, com Sebald e Jean Paul, que está contente com a sua pessoa por ter passado a juventude a lidar com o pôr-do-sol todos os dias, com o desaparecimento da luz, por ter passado a juventude num lar com muitas janelas, casa cuja recordação sempre lhe deu uma ajuda.

*Vida útil de uma estrela com massa 5 (Nick Strobel’s calculation) = 1/(5/1) elevado a (4-1) x 10 elevado a 10 anos = (1/125) x 10 elevado a 10 anos = 8 x 10 elevado a 7 anos.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

18 opiniões sobre “Há alturas em que temos tudo à nossa disposição”

    1. M.,

      Yo soy una white dwarf — estrella fría, estable, mantenida por la repulsión debida al principio de exclusión entre electrones. La luz es débil, pero persistente.

      Un abrazo cósmico para ti, amiga mía.

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  1. As pessoas que têm o privilégio de viver com uma janela onde assistir ao nascer ou ao por do sol, e que se dedicam a sentir esses momentos (porque muitas haverá que ter uma janela ou uma parede será igual!), são melhores pessoas.
    Gosto de pensar que respiram uma parte dessa energia e depois transformam-na em várias formas…quiça também em palavras, como o nosso contemplativo escritor/narrador tão bem faz!

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    1. As palavras carinhosas da Dulce, como do costume, me animam o coração.

      Sempre estive às janelas; elas não só me ensinaram a anotar histórias/estórias, como também a importância do silêncio, do estar parado um bocadinho e ouvir.

      Fechadas ou abertas, quadradas ou redondas, de vidro ou de madeira: as janelas se mostram excelentes professoras.

      Abraços e boa semana para ti.

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