Tripulante de convés

Em Niterói conheci um velho marinheiro que acabara de chegar do noroeste de Inglaterra. Confessou-me, não sem um certo embaraço, que não tinha pretensões de se meter novamente numa viagem transoceânica, que ali estava bem, sentado a jogar o baralho com os amigos, em terra firme. Usava o cabelo grisalho penteado para trás, segurava as cartas de um modo canhestro e expressava-se, assim me pareceu, com uma cortesia de antigamente. Meses solitários ao mar, disse o marinheiro, solidão que destrói a alma. A marinhagem se faz presente, mas você nunca consegue fugir de um terrível isolamento. O oceano e o nada, ele disse ainda, você e o nada. Solitude de morte que lhe faz refletir se tem mesmo o direito de estar, ou melhor, de ser sozinho. O navio, ele continuou, as ondas, observar os abismos do mundo que caem para o horizonte sem fim. Mas o gelo, disse-me finalmente o marinheiro, glacial que lhe deixa vazio, disso a literatura marítima não pode jamais esquecer.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

15 opiniões sobre “Tripulante de convés”

  1. Curioso, uns dão-se à instrumentação humana da terra-firma, enchendo-lhes a alma de maneiras nefastas que nos afogam. Outros, soltam bolhas de ar cândidas nos convés do mar gelado, em solidão, vazando a alma com cada plataforma cortante.
    Percebo agora então que a alma, ou se enche muito, ou se esvazia num instante. Fosse ela constante, não seríamos tão humanos.

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    1. Caríssimo J. M.,

      O escritor que dera um mau passo parte para o Atlântico e ali vai-se progressivamente entregando às consequências da loucura, deixa-se absorver na indiferença da vida etc. O que estou a falar é que uns correm atrás do cachalote, outros ficam enjoados e perdem o apetite.

      Seres,
      humanos.

      (O Brasil está sem gasolina, os camionistas cruzaram os braços, falta tudo…)

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  2. P.R.,

    Que incrível ver um texto assim falando sobre um dos conceitos mais abstratos da filosofia – o “ser” e o “estar” no mundo – relacionado à solidão, que talvez seja um dos estados mais difíceis de aceitarmos em nossas vidas… És grande!

    Abraços!

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    1. G.,

      A solidão é lá um esporte perigoso; os praticantes precisam treinar um bocado se desejam dominá-la com virtuosismo. Como no caso dos astronautas — que antes de se jogarem para o Cosmos têm de se acostumar à ausência de gravidade.

      Mas divago…

      Beijos!

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      1. Divagas bem! Quando penso em solidão, penso em aceitação – aceitar o que a vida nos dá, mas é
        claro que a conversa é mais complexa e a prática mais dolorosa.
        Beijo.
        😙
        G.

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  3. Entre solidão e solidões, navega o mundo. Umas mais difíceis que outras, umas menos solidões que outras. Mas a solidão no alto mar, engolida pelo medo, é a mais temerosa. Inimaginável. Os marinheiros solitários só podem ser seres especiais.

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    1. Concordo contigo, Dulce. Acrescentaria, também, a solidão do cosmonauta numa caminhada espacial: ele, uma corda presa na nave, o próprio planeta — longe — sob os pés, o infinito (ou quase isso) sobre o capacete…

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