Aqui só poderá brindar com corações de há muito rachados

Porque escreve
à Primavera,
flores abatidas
pelo verbo
do escritor.

Alheamento: o Brasil numa crise terrível, enquanto eu cá a escrever sobre os pássaros. «A Alemanha declarou guerra à Rússia. Período da tarde, natação» — qual Kafka, o despreocupado.

Às vezes, um pássaro canta tão alto que cala todos os passarinhos à sua volta.

De um discurso proferido num pequeno-almoço entre amigos para comemorar o anúncio do Prémio Literário Aldónio Gomes — o falante: vestido a rigor, casaco preto desportivo, calças jeans, sapatos confortáveis, bebe vodca de um só trago, serve-se outra vez, bebe, pousa o copo, diz: tinha treze anos quando escrevi uma estória pela primeira vez. Muito mais difícil do que eu previra. [Bebe novamente, enxuga a boca com a mão esquerda.] Um sopro gelado provocou-me arrepio na espinha. Senti medo.

— P. R. Cunha

19 thoughts on “Aqui só poderá brindar com corações de há muito rachados

  1. Escrever sobre os pássaros enquanto, não só o Brasil, mas o mundo inteiro, anda “numa crise terrível”, é mesmo a vocação pura do poeta. Dar grito áquilo que permanece mesmo depois de acabar as crisis mundiais. Seja em tempo de paz ou de Guerra os pássaros continuem a chilrear o seu grito, ou de angústia, ou de prazer, não sabemos qual, porque a força do grito é igual. Mas o poete sabe. E, tu, Paulo, sabes.

    1. Caríssimo Emanuel,

      Talvez o segredo seja mesmo manter os ouvidos bem abertos — e, quem sabe, os pássaros (ou mesmo os ventos de paragens inatingíveis) não falam ao nosso coração? Depois, acto contínuo, dialogar sobre o papel.

      Nós sabemos.

      Abraços tropicais para ti, meu amigo.

  2. Algunos pájaros de mal agüero, esos que ostentan el poder, también levantan la voz y dejan mudos a los de alrededor, mudos e impotentes ante la injusticia, ante la soberbia, anta la crueldad. Esos pájaros que organizan crisis, guerras, hambrunas, desigualdad… esos pájaros mejor muy lejos.
    Es más bello hablar de los pájaros con alas, cuyos trinos nos despiertan por las mañana…
    Un abrazo.

    1. Amiga mía, tú eres pura poesía. Casi siento que tengo alas cuando te leo. A mí me parece que tú eres también uno de esos pájaros, cuyos trinos nos despiertan por las mañana, y que vuelan más cerca de las estrellas.

      ¡Fuerte abrazo!

      1. Lo único que tengo de estrella es el nombre, ya quisiera yo tener su luz… pero gracias, exageras mucho. Me gusta comentar a los amigos, aunque no lo puedo hacer tanto como quisiera.
        Un abrazo.

    1. Éramos
      — nada.

      Estou a ver um rouxinol (Luscinia megarhynchos) neste exato instante. Às vezes vem me visitar pelas manhãs, noutras vezes esconde-se algures.

      Um rouxinol bem humano, pois não…

  3. Enquanto os caes ladram sempre vai haver a caravana que passa ou a ave canora.
    O segredo – se ele existe – talvez seja manter-se a uma distancia segura das mandíbulas.

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