Aqui só poderá brindar com corações de há muito rachados

Porque escreve
à Primavera,
flores abatidas
pelo verbo
do escritor.

Alheamento: o Brasil numa crise terrível, enquanto eu cá a escrever sobre os pássaros. «A Alemanha declarou guerra à Rússia. Período da tarde, natação» — qual Kafka, o despreocupado.

Às vezes, um pássaro canta tão alto que cala todos os passarinhos à sua volta.

De um discurso proferido num pequeno-almoço entre amigos para comemorar o anúncio do Prémio Literário Aldónio Gomes — o falante: vestido a rigor, casaco preto desportivo, calças jeans, sapatos confortáveis, bebe vodca de um só trago, serve-se outra vez, bebe, pousa o copo, diz: tinha treze anos quando escrevi uma estória pela primeira vez. Muito mais difícil do que eu previra. [Bebe novamente, enxuga a boca com a mão esquerda.] Um sopro gelado provocou-me arrepio na espinha. Senti medo.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

18 opiniões sobre “Aqui só poderá brindar com corações de há muito rachados”

  1. Escrever sobre os pássaros enquanto, não só o Brasil, mas o mundo inteiro, anda “numa crise terrível”, é mesmo a vocação pura do poeta. Dar grito áquilo que permanece mesmo depois de acabar as crisis mundiais. Seja em tempo de paz ou de Guerra os pássaros continuem a chilrear o seu grito, ou de angústia, ou de prazer, não sabemos qual, porque a força do grito é igual. Mas o poete sabe. E, tu, Paulo, sabes.

    Liked by 1 person

    1. Caríssimo Emanuel,

      Talvez o segredo seja mesmo manter os ouvidos bem abertos — e, quem sabe, os pássaros (ou mesmo os ventos de paragens inatingíveis) não falam ao nosso coração? Depois, acto contínuo, dialogar sobre o papel.

      Nós sabemos.

      Abraços tropicais para ti, meu amigo.

      Gostar

  2. Algunos pájaros de mal agüero, esos que ostentan el poder, también levantan la voz y dejan mudos a los de alrededor, mudos e impotentes ante la injusticia, ante la soberbia, anta la crueldad. Esos pájaros que organizan crisis, guerras, hambrunas, desigualdad… esos pájaros mejor muy lejos.
    Es más bello hablar de los pájaros con alas, cuyos trinos nos despiertan por las mañana…
    Un abrazo.

    Liked by 1 person

    1. Amiga mía, tú eres pura poesía. Casi siento que tengo alas cuando te leo. A mí me parece que tú eres también uno de esos pájaros, cuyos trinos nos despiertan por las mañana, y que vuelan más cerca de las estrellas.

      ¡Fuerte abrazo!

      Liked by 1 person

    1. Éramos
      — nada.

      Estou a ver um rouxinol (Luscinia megarhynchos) neste exato instante. Às vezes vem me visitar pelas manhãs, noutras vezes esconde-se algures.

      Um rouxinol bem humano, pois não…

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s