Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)

Parque — ao som das gaivotas.

Podem estar à vontade, meus fidalgos. Um vosso humilde servidor com ar cortês e gentil, olhando pela janela, diz que cá neste electro-sítio há quanto se quer. Noutros termos: julgo-me feliz, senhoras & senhoras. O João Maurício Brás falara sem receio que quando um escritor se torna muito estudado — até que ponto devemos/podemos confundir vida-e-obra, ficção-e-realidade, o que-é-o-quê? — deixa com frequência de ser vivido. A análise, portanto, possui algo de esquartejamento e artificialismo. Se simplesmente escrevemos que determinado personagem encontra-se num café e leva a chávena aos lábios, poucos perguntariam se esse personagem seria ou não o próprio autor. Ato corriqueiro: ir ao café, tomar o café, etcétera. Mas daí acrescentamos que sentimentos de amor fazem com que o personagem leve a chávena aos lábios, ele está à espera de alguém, e, como se sabe, para um enamorado toda a demora é um sacrifício. N’um abrir e fechar de olhos, fantasia se transforma em biografia: ora!, quem o autor está a esperar?, que amor é esse que o aflige? Digo-vos que a viagem é de longe, e com boa fome tudo sabe bem. Mas os fidalgos muitas vezes se enganam. Acontece de a caneta-livre ser o maior tesouro que um romancista pode possuir, quando é rijo o braço e esforçado o coração. A tinta, porém, também falha. De forma que — não raro sem saber — observamos as linhas do escritor dançarem sobre o pedaço de papel a pedir perdão, se a mágoa e a vida o tornaram um bocadinho injusto. Ele não fez por mal.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

14 opiniões sobre “Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)”

  1. ¿Disculpas a la humanidad? ¡Qué importa la humanidad en este caso! Eso es lo interesante, no poder distinguir entre realidad y ficción, porque lo dejas a juicio del lector. ¿Quién sabe cuánto hay de verdad en mis relatos, o si acaso hay algo?. Eso también atrapa. Y ahora sólo quiero creer que eres feliz. Lo demás da igual.

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  2. P.R., querido, é isso! Quem sabe se aconteceu ou não? Pode ter acontecido com quase todos ou não ou só comigo ou só contigo ou com alguns, mas está ali compartilhado com amor, dor e humor! Beijão.

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  3. Es verdad que un escrito se puede interpretar de diferentes maneras, de tal manera que pueda parecer verdad o fantasía, según el sentido de una frase. Pero eso no importa demasiado si está bien escrito y llega al corazón, yo escribo mucho sobre mis sentimientos, pero no todos son totalmente fieles a la verdad, también tienen ficción adornando a la realidad.
    Un abrazo.

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    1. «Yo escribo mucho sobre mis sentimientos, pero no todos son totalmente fieles a la verdad, también tienen ficción adornando a la realidad.»

      ¡Eso es, Estrella! Una excelente definición de autobiografía ficcional (autoficción, como yo prefiero llamar).

      Un abrazo virtual para ti — pero con sentimientos muy verdaderos.

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