Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)

Parque — ao som das gaivotas.

Podem estar à vontade, meus fidalgos. Um vosso humilde servidor com ar cortês e gentil, olhando pela janela, diz que cá neste electro-sítio há quanto se quer. Noutros termos: julgo-me feliz, senhoras & senhoras. O João Maurício Brás falara sem receio que quando um escritor se torna muito estudado — até que ponto devemos/podemos confundir vida-e-obra, ficção-e-realidade, o que-é-o-quê? — deixa com frequência de ser vivido. A análise, portanto, possui algo de esquartejamento e artificialismo. Se simplesmente escrevemos que determinado personagem encontra-se num café e leva a chávena aos lábios, poucos perguntariam se esse personagem seria ou não o próprio autor. Ato corriqueiro: ir ao café, tomar o café, etcétera. Mas daí acrescentamos que sentimentos de amor fazem com que o personagem leve a chávena aos lábios, ele está à espera de alguém, e, como se sabe, para um enamorado toda a demora é um sacrifício. N’um abrir e fechar de olhos, fantasia se transforma em biografia: ora!, quem o autor está a esperar?, que amor é esse que o aflige? Digo-vos que a viagem é de longe, e com boa fome tudo sabe bem. Mas os fidalgos muitas vezes se enganam. Acontece de a caneta-livre ser o maior tesouro que um romancista pode possuir, quando é rijo o braço e esforçado o coração. A tinta, porém, também falha. De forma que — não raro sem saber — observamos as linhas do escritor dançarem sobre o pedaço de papel a pedir perdão, se a mágoa e a vida o tornaram um bocadinho injusto. Ele não fez por mal.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

14 opiniões sobre “Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)”

  1. ¿Disculpas a la humanidad? ¡Qué importa la humanidad en este caso! Eso es lo interesante, no poder distinguir entre realidad y ficción, porque lo dejas a juicio del lector. ¿Quién sabe cuánto hay de verdad en mis relatos, o si acaso hay algo?. Eso también atrapa. Y ahora sólo quiero creer que eres feliz. Lo demás da igual.

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  2. P.R., querido, é isso! Quem sabe se aconteceu ou não? Pode ter acontecido com quase todos ou não ou só comigo ou só contigo ou com alguns, mas está ali compartilhado com amor, dor e humor! Beijão.

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  3. Es verdad que un escrito se puede interpretar de diferentes maneras, de tal manera que pueda parecer verdad o fantasía, según el sentido de una frase. Pero eso no importa demasiado si está bien escrito y llega al corazón, yo escribo mucho sobre mis sentimientos, pero no todos son totalmente fieles a la verdad, también tienen ficción adornando a la realidad.
    Un abrazo.

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    1. «Yo escribo mucho sobre mis sentimientos, pero no todos son totalmente fieles a la verdad, también tienen ficción adornando a la realidad.»

      ¡Eso es, Estrella! Una excelente definición de autobiografía ficcional (autoficción, como yo prefiero llamar).

      Un abrazo virtual para ti — pero con sentimientos muy verdaderos.

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