O amor praticado por duas personagens que conversam entre si, discutem, brigam e depois ficam tranquilas

Por um fim de tarde de primavera, deambula com a Maria Júlia pela praia de Copacabana, contempla as ondas que Tom Jobim imortalizara, rodeia com um braço sentimental os ombros dela e diz: a paisagem do Rio de Janeiro é composta por praias, montanhas, calçadão, pedras portuguesas, Corcovado, trilhas, táxi amarelo, Maria Júlia, areia, céu, Lua — estrelas.

Se o escritor brasileiro não ganha prêmio, ele reclama. «Então tome um prêmio, escritor brasileiro.» Agora o escritor brasileiro, na sua insolência sempre voltada para o exagero opulento, diz que o prêmio paralisa, entorpece. Neve do prêmio, solidão do prêmio, as inúmeras possibilidades secretas do prêmio. Sentir-se culpado por ganhar o prêmio, e por aí vai.

«A biografia do escritor é tudo aquilo que, acoplado ao sufixo, revele a sua natureza de aglutinações sígnicas. Geografia e lexicografia, viagem e linguagem» — João Alexandre Barbosa, 1979.

É necessário escrever de uma vez, numa sentada, como se diz, antes que o cérebro atrofie. As pessoas podem/devem achar uma porção de coisa: não estou a crer que este ser humano ganhara prêmio no estrangeiro. Voltar à normalidade.

Mal du prix — mal do prêmio. Dor aguda, debilitante, febre temporária, pois não.

O que é que me entusiasmava… Estar entre o mar e o longe. Desde que o tempo estivesse razoável.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

14 opiniões sobre “O amor praticado por duas personagens que conversam entre si, discutem, brigam e depois ficam tranquilas”

    1. Querido amigo,

      Três dias depois do prémio e sinto cá como se nada tivesse acontecido. De aí sigo adiante, para novas paragens. Porque navio que navega não cria limo.

      Abraços!

      P. S.: é verdade que por vezes permito-me contemplar a planta de edificação uns momentinhos; afinal, como bem disseste: estou em festa.

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  1. Meu Deus PR, sempre quando eu viajo e volto tu ganhas alguma coisa! Tu és mesmo sensacional! Alguma previsão para lançar o teu livro aqui no brasil? Estou ansiosa. Beijos e meus parabéns!

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  2. Es comprensible estar en las nubes tras ganar un premio, eso no ocurre todos los días. Seguro que desde entonces los días te parecen mucho más luminosos y la vida mucho más llevadera. Así que a disfrutarlo.
    Felicidades de nuevo y un abrazo.

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    1. Estrella,

      Gracias, siempre.

      Aquí en las nubes la vista es hermosa, sí, todo más brillante. Pero entiendo que estos son días transitorios. Estoy disfrutando, y mañana volveré a mi rutina normal.

      Un premio, al fin y al cabo, debe ser un combustible, y no una camisa de fuerza — ¿verdad?

      (:

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