A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Então você investiu dinheiros numa obra literária — chegou em casa, sentou-se à escrivaninha e começara a folhear o livro. Alas!, trata-se de uma narrativa horrorosa, ilegível. Você, naturalmente, está agora a se sentir um bocado lesado e diz para consigo mesmo: que assim não fica, preciso de reclamar com o autor, gângster, salafrário, bandido etc.

Mas como fazê-lo?

A verdade é que quando o escritor escreve algo ruim ele acaba descobrindo de um modo ou de outro. Percebe quando se dá mudança de atenção, descobre pelo jeito diferente que dele se afastam, por se evitar comentário, pelo rosto choroso da mamã que arranca os cabelos a pensar: e o gajo largara tudo para escrever e ainda me escreve isso —, ou mesmo pelo modo indiferente da suposta pessoa amada que não consegue esconder ojeriza.

Noutros termos, quer se diga claramente ao escritor ou não, ele tomará conhecimento de alguma forma. Ao passo que saber compartilhar uma crítica com um literato (i.e.: o senhor vai me desculpar, mas o seu livro é terrível, odiei-o) é sem dúvida uma verdadeira arte.

Respire fundo, acalme-se: comunicar a notícia de maneira branda e gentil faz com que o escritor continue depositando esforços para quem sabe um dia aprender o próprio ofício adequadamente.

Quanto mais simples o modo de se expressar, mais fácil é para ele ponderar depois. Alguns apreciam quando recebem a crítica na intimidade do próprio gabinete, através de carta convencional e/ou electro-carta. Mostre que você possui um coração e evite, portanto, recorrer de imediato às redes sociais ou aos tabloides irascíveis — isso magoaria imenso o sentimento alheio. 


Post scriptum: não se surpreenda, no entanto, se mesmo depois de tanto zelo receber respostas belicosas do escriba, tais como: Tu que não compreendes patavina de literatura; Eu cá sou o melhor escritor do mundo, não te devo um vintém; Nunca escrevi para leitores d’esta geração, minha obra é para aqueles do futuro; e assim por diante.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

29 opiniões sobre “A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins”

  1. Estoy muy de acuerdo con tu reflexión. Supongo que al escritor principiante una mala crítica puede causarle un trauma, pero si la crítica es constructiva y, a pesar de decir lo que tiene mal, abunda un poco en los hechos destacables, puede ser incluso beneficiosa.
    Aún así, cuando has escrito algo con toda la ilusión del mundo, será muy duro encajar una mala crítica.
    Un abrazo.

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    1. Estrella!,

      A mí me parece que todas las críticas son constructivas, incluso las más severas. Son los golpes que la vida nos da. Y si realmente nos importa lo que estamos escribiendo, nos pondremos de pie y continuaremos. ——— De lo contrario, uno permanecerá extendido en el suelo.

      Pero, ¿qué sé yo?

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  2. Genial meu amigo! Acho que escrever vem se tornando um processo mais fácil, no sentido de praticidade e também acessibilidade, o que nem sempre é bom, ou ruim. “Fazer” arte, no geral, vem se tornando mais “prático”, porque nos dias de hoje TUDO podemos, pois TUDO queremos, mas a qualidade daquilo que iremos criar, creio que irá depender de nossos esforços enquanto sujeitos, a partir de nossas vivências, expectativas, dedicação, conhecimento, estudo, experiência, da vida e da existência. Claro que, acima de tudo, partindo do início, precisamos primeiro ser leitores, pois só saberemos ler, escrever e interpretar tomando gosto e sabor por cada pedaço de letra. Ser é fácil demais, pois todos nós já somos. Difícil é existir naquilo que podemos, devemos, escolhemos ser.

    Abraço!

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    1. Assino embaixo, Alan.

      Inclusive, escreverei exatamente sobre essas batalhas na próxima terça-feira. Aconteceram-me coisas incríveis, amigo. E não vejo a hora de poder compartilhar. Enquanto isso, como diriam os Floyds — the show must go on

      Abraços!

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  3. A “escada” de um escriba será certamente como a “escada” da vida: ora se sobe tranquilamente, ora de dois em dois degraus; ora nos desequilibramos e lá vai queda: ora nos dão um encontrão e descemos um degrau; ora nos dão uma mão e avançamos mais depressa; ora…ora…; Mas a escada é para subir. Sempre.
    Porque na alma do escriba e da vida, está a necessidade de ver mais amplo, abarcar mais. E isso está no cimo da escada. Até o ver melhor para dentro, interiormente…
    O objectivo cumpre-se com degraus. E com aplausos e assobios.
    E deixando a se(mente) germinar tranquilamente!

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    1. Dulce, tu és um bocado fascinante!

      Eu cá me sento e leio-te com muito esmero. Depois, continuar a subir esses degraus — por vezes tempestuosos, mas na maior parte do tempo uma jornada repleta de surpresas agradáveis, pois não…

      E concordo contigo em género, número e grau: acima, sempre.

      Terça-feira conto-te boas novas — o que posso adiantar é que o teu maravilhoso país deu-me a maior alegria dessas minhas excêntricas trinta e duas voltas ao redor do Sol.

      Abraços, minha amiga.

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  4. Eu vivo sempre ansioso do dia em que me dirão que não gostam d’algo que escrevi, pelo que é mágico terem lido, não sei (para mim), ter uma opinião negativa é umas quantas vezes melhor que não ter nenhuma, que ter sido só algo desmerecedor de qualquer ideia de qualquer tipo.
    Já me deparei com alguns escritos menos bons nos meus jovens tempos, mas o meu coração derrete quando se aperta a altura de o vocalizar. Faço a pior de todas as coisas: digo sempre que é bom, não tenho um nervo no meu corpo que consiga contrair o suficiente para dizer outra coisa. O que faz de mim inapto para uma eventual carreira educacional universitária…
    O teu texto tem elementos interessantes sobre o diálogo milenário da forma vs. conteúdo, saber dizer é tão importante como a mensagem a ser enviada, acredito, na minha ingenuidade.
    Como não posso acabar o comentário com um “come to Brazil”, vem cá lançar o teu livro, porque não assinaste a minha cópia, e tenho um Gecko novo chamado ‘Dino’ que adora morder escritores.

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    1. Exatamente, Johnny. Que tenham dedicado tempo e esforço para ler palavras que colocamos para o papel na nossa solidão já é algo de se colecionar. E acredito também que existe uma maturidade muito bonita no ato de deixar os textos-filhotes seguirem o próprio rumo, sabes? Porque às vezes eu cá me torno aquela criança que destrói o brinquedo que ama para compreender sua engrenagem, terminando por quebrar o encantamento mágico e descobrir os sortilégios do artifício (essa comparação, inclusive, foi feita, noutros termos, pelo Manuel da Costa Pinto). Ou mesmo aquela centopeia enraivecida que de repente não consegue mais andar, pois deu-se conta de que possui cem perninhas. In a nutshell: o texto fugiu-nos, agora é do mundo.

      Em breve conversaremos pessoalmente, Johnny. Terça-feira, repito, explicar-me-ei.

      Abraços!

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      1. Obrigada pelas bonitas palavras de encorajamento P.R.! Acontece que, para mim, exemplos funcionam mais do que palavras e seu entusiasmo com as letras e com a arte me encorajaram a não apenas escrever e publicar mais, como também voltar para as artes cênicas. Encontrei um grupo que estava iniciando uma peça e, há 2 semanas, estamos ensaiando. A propósito, parabéns pelo prêmio da novela! Minha admiração e gratidão por você já são eternas. Abraço!

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        1. Que mensagem adorável, Debbie! Não havia aparecido na minha caixa de comentários e só pude lê-la agora, um pouco ao acaso. Fico tão contente em saber que está a voltar para as atividades cênicas. Quando vocês forem se apresentar, por favor, avise-me. Quero muito assisti-los.

          Beijos para si.

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  5. Já aconteceu comigo. Comprei um livro, depositei muita confiança no mesmo. Quando fui ler, fiquei super desapontada. Não era o que esperava. Aliás, já sabia do que se tratava, mas a forma como a autora trabalhou o assunto não me convenceu. E olha que não me considero uma “leitora exigente e crítica” rs.

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