Perambular com paciência

No Natal de 1956, o escritor suíço Robert Walser sai para dar um passeio e horas depois é encontrado sobre a neve: morreu como vivera — a caminhar para nenhures.

A história do mundo demonstra que a caminhada é mesmo uma das atividades prediletas dos literatos. O flâneur, como certa vez escrevera João do Rio, cujos apontamentos são guardados na placa sensível do cérebro; as cenas vibram-lhe no cortical. É ter lá o vírus da observação.

Gostar de caminhar, ir por aí, de manhã, de dia, à noite, durante um nevão, ou sob um sol escaldante, porque a arte de flanar remete ao passeio aleatório da vida. Há alegria também nestas imprecisões.

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Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

19 opiniões sobre “Perambular com paciência”

  1. Paulo, você já assistiu ao “Я шагаю по Москве”? Seu texto me lembrou daquele filme. A cena final mostra o personagem cantando numa estação de metrô. Uma oficial pergunta o que ele está fazendo e ele responde, naturalmente (hehe), que está cantando. Ela fala para ele continuar a cantar.

    Andar para cantar e cantar enquanto se anda: há poucas coisas na vida melhores que isso e seu texto me remeteu a essa bela sensação.

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  2. Recebi o teu lindíssimo livro juntamente com a revista mais encantadora que já vira.
    Irei, por correio electrónico, enviar louvações aos dois trabalhos assim que os ler.
    Gosto muito de caminhar, uma vez caminhei 140 kilómetros de Lisboa a Fátima, foi qualquer coisa divina.

    Gosto muito de ti, Cunha,
    Um abraço.

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    1. Johnny,

      Que bom que chegaram livro e revista à morada lisboeta. Acompanhei a travessia pelo sítio web da transportadora, a ver se não estavam perdidos no meio do Atlântico. E eu cá te devo uma resposta à altura de nossas correspondências, meu adorável amigo-poeta. Encontro-me numa semana de afazeres musicais, de forma que a próxima carta chegar-te-á em tons líricos.

      Também gosto imenso de ti, João.

      Abraços!

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    1. Sim, Vittorazze.

      E se o tipo mora no hemisfério Norte: morre-se sobre a neve durante um nevão. Já no hemisfério Sul: sobre as areias de uma qualquer praia tropical. Mas estamos todos a caminhar, o fim é o mesmo em todas as direções.

      Abraços!

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