Tardinha para o Atlântico

E ninguém há-de entender mais nada — nem o Rio, nem Brasília, nem a Tristeza, nem Eu, nem Niterói.

Um eterno colocar-se em buracos, poços, situações humilhantes, menosprezar-se, fracassar, para depois escrever, sim, sempre a escrita, a ver se ela lhe tira desses abismos; sempre foi assim, desde pequeno. Passar a vida inteira sobre os papeis, com uma caneta queixosa, satisfazendo a própria demanda por literaturas. Fluxo inesgotável de ideias. Onde colocar todas elas? Como organizá-las em arquivos cerebrais? 

Sem inclinações para o comércio, disseram-no, muito menos para o trabalho braçal, coloca-se a serviço da única atividade capaz de absorver as ambições de uma consciência brandamente alienada: fábrica de livros, fábrica de estórias.

Ou colisão aleatória de diferentes palavras. Surge um texto. E com mutação gramatical espontânea, produz-se universo de incertezas, mentiras, não-ditos. Há pessoas que chamam a isto Escritor —— ou Deus.

[À deriva para sudeste]
Pois que tenho no
interior um oceano
muito mais agitado

Suave, o som da maré. Então, aos poucos, com a força cumulativa de uma extinção em massa, todo aquele sentimento chegou ao fim. O que parecia mútuo, revelou-se frágil, inconstante. E o que parecia para sempre, foi apenas um por-enquanto. Etc.

Na rua, o choro de um bebezinho que ainda não fala. ————— O que sentirá?

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

14 opiniões sobre “Tardinha para o Atlântico”

  1. Las ideas bullen,
    las palabras se atropellan,
    mi mano se desliza en el papel
    ordenando las letras,
    dándoles vida una vez más,
    emociones, amor, odio, pasión,
    haciendo que mi vivir
    tenga sentido…

    ¿Qué le pasa al bebé? está aprendiento a vivir.
    Un abrazo.

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    1. Querida Estrella,

      Tus respuestas no son solo respuestas, sino poesías que siempre complementan. Es un orgullo enorme tenerte como lectora.

      A mi me parece que, al fin y al cabo, estamos todos (bebés y adultos) aprendiendo a vivir.

      Un fuerte abrazo para ti.

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  2. “Escuché” por un momento el mar… Me sentí abrumada por el fluir de las ideas reboloteando en mi mente. Me sentí ese niño que reclama la atención de su madre….

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    1. Sí, mi adorable amiga. El mar es realmente encantador. Uno se pierde en las olas. Y a veces es como si no quisiera volver al continente.

      El bebé llora por todo…

      Gracias por su amable respuesta, Cris.

      Un abrazo más grande que el océano Atlántico para ti.

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      1. Ô meu amigo! Somos todos marinheiros em um grande e desconhecido mar. Agradeço minha onda ter quebrado aí, ou a tua aqui. Ser marinheiro é ter um pedaço do nosso coração por cada lugar onde já desembarcamos, sentindo alegria, tristeza, saudosa saudade, navegando sempre para lugares ainda desconhecidos.

        Abraço de água salgada!

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