«Nova antologia de contos brasilienses», duas breves narrativas de P. R. Cunha

W3 Sul

Um fotógrafo brasiliense que durante mais de trinta anos batalhou pela vida, como se diz, fotografando acidentes automobilísticos foi atropelado por um ônibus na avenida W3 Sul. Para não perder a lucrativa oportunidade, o fotógrafo, ainda gemendo de dores, tirou do bolso da calça o próprio telemóvel e apontara a câmera para si. Ao que parece, o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília pagaram, respectivamente, R$ 45 e R$ 50 pela selfie.

Sem pudores

Três sobreviventes de uma catástrofe aeronáutica viram-se obrigados a consumir a carne de outros passageiros mortos — do contrário teriam morrido à fome. Aquando da chegada do resgate disseram que, de início, enquanto mastigavam a carne humana, precisaram de fazer um esforço descomunal a fim de imaginar o gosto da carne bovina, mas logo aperceberam-se de que não havia muita diferença entre os dois tipos de carne; praticamente o mesmo sabor. Meses depois, durante entrevista a um canal televisivo, os três sobreviventes confessaram sem pudores que, agora, ao consumirem carne bovina, concentravam-se para lembrar do gosto da carne humana.

prantologiaw3sul

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

12 opiniões sobre “«Nova antologia de contos brasilienses», duas breves narrativas de P. R. Cunha”

  1. Somos por natureza uns insatisfeitos…até no paladar…
    E depois procura-se nas selfies alimento para tanta insatisfação….
    …neste caso, acho mesmo que ele estava sem dinheiro para ir à clínica tratar das dores… e o dinheiro da selfie seria uma ajuda!

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    1. Tratou-se, o fotógrafo, ao Sistema Único de Sáude e, pelo que me contaram, o dinheiro não custeou sequer a tarifa do Uber (ficara por conta do motorista do autocarro). Mas serviu-lhe para a bebedeira pós-traumática. Tirou, inclusive, outra selfie para mandar aos familiares, que moram longe. A legenda: sobrevivi.

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