Dois embarques

Em maio de 2016, eu partira de Brasília com destino a Niterói na esperança de superar ao oceano marítimo um desassossego particularmente perturbador: mistura de ansiedade, com saudade, com aflição por achar que nunca terminaria o meu livrinho (Paraquedas, um estudo filosófico), que já há tempos estava a escrever. Indizível melancolia por flertar com a minha finitude, com o meu, como se diz, «eterno processo de dissolução extremamente lento».

— Brasília, para escapar daqui só indo para Saturno; ou para Niterói.

De manhãzinha, antes de sair para as caminhadas aparentemente sem destino, sentava-me à máquina de escrever que pertencera ao meu papá e datilografava:

Regresso a Niterói, que me é agora tão estranha como antes me fora familiar. O apartamento da minha avó fica no 24º piso. Daqui se vê até muito longe a toda a volta. Inclusive o desengonçado morro com formato de cavalo, atrás do qual dissipam-se as lacrimosas ondas do Atlântico. Ali está um oceano onde começa a viagem para Portugal — ou para a morada dos náufragos. 

Poder deixar a vista espraiar-se até tão longínquas paragens, sem dúvida, liberta o coração.

Há dias
em que
não percebo
nada de mim.

Maio de 2018 — muito cansado, ralado e estropiado, voltarei novamente a Niterói a ver se encontro uma tranquila noite de sono, com a certeza de que a minha juventude, ou melhor, de que aquele tempo maravilhoso em que tudo ainda era possível, já começa a se despedir definitivamente deste desventuroso narrador.

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Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

25 opiniões sobre “Dois embarques”

  1. Outro dia vi um filme sobre a decisão de levar a capital do país do Rio para o centro do país. Acho q era da “Porta dos Fundos”, assim sendo em tom de comédia, mas deve ter sido mesni uma reunião comédia.
    Nunca me convenceram os argumentos. Agora é tarde.

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    1. Pois, Miau.

      A mim me parece que o argumento mais interessante é este: levar desenvolvimento ao interior do país e construir uma cidade-automóvel para atender às demandas da benzina estadunidense.

      Ironia à parte.

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    1. Querida, Mirella: pois que qualquer fotocópia de um textinho datilografado sugere, tal como as ruínas de uma cidade inabitável, um sentimento de passado. Mas hoje todos os corações estão felizes. Amanhã, quem sabe?

      Ah!, braços…

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  2. Cunha, sempre dás um viés lusitano à tua linguagem. Isso faz-me rir e pensar que a escrita fica bem fácil e feliz, assim tipo salada-de-frutas. Quer dizer: esse tempero lisboeta é ficção ou veia de raiz de lá mesmo? De qualquer modo, é invenção e fica bem.

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    1. Caríssimo Rovedo,



      Primeiramente: o teu blogue foi-me um verdadeiro achado. Sê bem-vindo nestes planaltos.

      Já há algum tempo que estou a trabalhar com um editor de Alfragide — não nos textos deste electro-sítio, mas nos livros «a valer». Curioso teres comentado sobre a salada-de-frutas, pois que a ideia foi justamente dele: escreve como se tu fosses um alfragidense perdido em Brasília, ou vice-versa… etc. No fim de contas, falamos português; isso deixa-me despreocupado, livre e feliz.

      (À guisa de consolo familiar: meu bisavô era lisboeta, veio para o Brasil produzir seres humanos [teve quase trinta filhos].)

      Por enquanto, mando-te abraços brasilienses. Porque em breve estarei perto de ti, do outro lado da baía.

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        1. Rovedo,

          De certeza que praticarei o xadrez à praia de Icaraí — costumo jogá-lo com a minha adorável abuelita. Soube também de um possível torneio no NXN, rua Prof. Lara Villela, 176 Ingá. A ver se aceitam jogadores do «estrangeiro». Papai era membro do Clube de Xadrez da Guanabara, ficava para o centro do Rio de Janeiro — não sei se ainda existe. Foi ali que aprendi a gostar das batalhas quadriculadas.

          Sobre Alfragide — trata-se de uma freguesia portuguesa, fica no município de Amadora. Limita a oeste com o concelho de Lisboa. Não se está, portanto, longe do mar. É pacata, serena, amistosa para as práticas literárias. Pois bem: para lá vive o meu editor. E eis a gênese da salada-de-fruta.

          Abraços!

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          1. Então, caro Cunha, nosso colóquio está mais para os mistérios do xadrez do que se imagina. Entre os anos 1970 e 1990 estive entre jogadores, sócios, diretores e fui até Presidente do CXG. É bem provável que teu pai e eu tenhamos sido amigos e jogado partidas nos torneios do Guanabara. Ainda de vez em quando vou lá, mas já estou velho e cansado da vida (76 anos). Fica na Av. Churchill n. 109 – Centro. Bem perto da Praça XV, onde a barca descarrega a turma de Niterói. Um dia, quem sabe, poderemos nos encontrar ali. No NXN cuidado com o alemão Georg Bullow que tem 2300 de rating. O cabra é técnico e joga bom xadrez. Um abraço.

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            1. Rovedo,

              Mas será mesmo possível tamanha coincidência?! Se calhar escrevo livro a respeito e dividimos os bons lucros.

              Meu pai (Evandro de Oliveira Cunha) nasceu em Niterói, mas veio morar para Brasília logo no início dos 1980. Era médico, de forma que só conseguiu jogar o xadrez quando os afazeres clínicos davam-lhe trégua. Em férias, costumávamos atravessar a ponte e íamos ao CXG — agora me lembro de comentarmos sobre a Av. Churchill; achávamos que era lá um nome deveras apropriado para as batalhas de tabuleiro. Vês, herdei do papai certa obsessão pelos meandros da Segunda Guerra Mundial, de forma que era também um bom motivo para conversarmos a respeito desse terrível combate, etc. Enfim: se não jogaram juntos, é capaz de terem se esbarrado por ali de alguma maneira.

              No auge dos meus trinta anos, como se diz, atingi o rating de 2100 no Chess.com — mas eram lá tempos mais serenos. Se hoje enfrento o Kaiser Georg Bullow, fico a ver navios.

              Quanto a ti, meu caro Rovedo, bem deves ser um Mestre Nacional (porque chegar à presidência do CXG não é para qualquer alma errante, pois não). Seria uma honra poder te encontrar à Baía: conversaríamos sobre a aposentadoria do Philip Roth, sobre os poemas do teu irmão (Lagoa Nhá Jansen empírica / vives de causas e de dramas / entre uma e outra política / muitas lágrimas derramas. [João Rovedo]), quem sabe até sentaríamos para uma partidinha de xadrez — a mais rápida da história do mundo, já que tu me derrotarias num piscar d’olhos.

              Tudo isto, naturalmente, ao som de Mahler.

              Este brasiliense aluado manda-te vivas!

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  3. Oi, Paulo!
    Minha próxima pergunta foi sobre fotocópias de um texto e máquina de escrever. Agora sei. Ou não sei… Afinal de contas como você já disse, que não tudo de autobiográfico. Mas você escreve de forma muito realista e também eu não pacificar minha imaginação… Eu leio “malas prontas para Niterói” e estou triste por causa de separação, que vem:))). Na próxima dia vejo seu artigo novo e acho: tudo bem, ele está aqui. Mas o que isso? De novo sobre Niterói e eu já vejo você absolutamente só está no barco frágil em enorme hostil oceano (não sei porque assim, em barco:)))…
    Já sei, com certeza, que você na verdade vai viajar, mas não vou deletar o que escrevi, por causa que tudo isso se aplica a tudo mais. Vejo Você em escritor, que mora perto do mercado russo (me lembra O Mestre do Bulgakov) e em jogador de xadrez (pode ser, por causa da sua foto). Parece que pode dizer não “Não sou eu”, mas “E isso sou eu também”
    Bem, na verdade não sei porque escrevo tudo isso. Provavelmente, isso meu “feedback” da sua criatividade.
    Depois da revisão inventei o chamado para meu texto “Deletar depois ler” (ou melhor “antes”).
    Também vou viajar, então, Boa viajem para nós dois!(:

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    1. Милая Лена,

      Este sítio web é uma forma de desafogar todo o material que não utilizo para os meus estranhos livros. Muitas vezes estou a escrever sobre determinado assunto, faço cá uma pesquisa quixotesca e quando dou por mim vejo-me com um monte de papéis sobre a mesa. Montanhas de ideias, de possibilidades. Este sítio é, portanto, um espaço de ficção — com o famoso álibi de que tudo o que criamos está ligado, naturalmente, à nossa biografia.

      Tu me comparaste com o Mikhail Bulgakov e confesso-te que me envaideci um bocado. O mestre e a margarida é um livro cuja leitura sempre me inspira tremendamente. Apesar de que, como mencionei num outro comentário, minhas influências russas vêm de autores do século vinte (Dovlátov & Brodsky).

      Огромное спасибо за внимание, Лена. Я всегда рад, что тебе нравятся мои писания. И приятных выходных тебе. (:

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  4. O pensamento deste narrador, que se diz desventuroso, é um autêntico jogo de xadrez!
    De um lado do “tabuleiro”, o pensamento-ficção; do outro, a realidade. Acho que a ficção podem ser as peças brancas e a realidade as pretas….ou talvez não!
    As “peças”… num dos lados são os personagens reais da vida…e no outro, filósofos, autores e pensadores fruto de muitas leituras. Por vezes dão-se todos bem, noutras nem tanto….
    A estratégia deste “jogo”… é o “desventuroso narrador”, como se intitula aos trinta e poucos anos de vida, estratégia que entre avanços, recuos, duvidas e certezas, tem jogadas/pensamentos de mestre.
    Penso que será um jogo eterno… sem xeque-mate, nem vencedor. Porque cada um sabe que precisa do outro para se sentir vivo e produtivo!

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    1. Caríssima Dulce,

      É exatamente isso.

      Tu me deste um xeque.

      ——— Inclusive, se permitires, gostava de publicar essa tua resenha numa postagem «oficial» do blogue.

      Abraços e uma boa semana para ti.

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