Ser escritor no Brasil, desagradável terreno da realidade — e não sou eu que quero interromper o sr. de Guesclin, é a condessa

(Un breve relato sobre ayer — para mi amiga Cristina, que, como yo, prefiere las ventanas.)

É melhor evitar os afetos
por escritores brasileiros
eles esperneiam muito
e depois é uma tristeza
para o coração.

Dia seguinte, dor de cabeça, ressaca moral. Após lançamento de relativo sucesso, boa vendagem etc. etc., o escritor passa por uma crise. O que sempre pressentira ficou mais do que evidente: ele não sabia por que tinha se tornado escritor. Resultado: as pessoas elogiam o livrinho que ele ajudara a escrever, mas ele nada sente. Está vazio por dentro, o escritor. Ele é talvez um bom romancista, mas agora detesta o que escreve.

Lançar livro de literatura no Brasil é um pouco como voltar para a escola e ter de apresentar trabalho sobre o Pedro Álvares Cabral: a professora presta atenção, a mocinha que está apaixonada por você também presta atenção, alguns cinco ou seis coleguinhas fingem que prestam atenção, mas a grande maioria da turma está ocupada com outras coisas.

A descoberta da solidão do escritor brasileiro, o drama vital do escritor brasileiro, o valor e a intensidade da obra do escritor brasileiro, o perigo da inautenticidade, o refúgio insalubre no geral e no anônimo (estou a citar Unamuno para agradar à Cristina), a deriva para o esteticismo como fuga perante a dificuldade de viver. E assim vai…

Seja claro, escrevinhador.

O Brasil obriga os pobres escritores a tornarem-se palhaços, sob pena de morrerem de fome. Não se despende uma nota de dinheiro em subsidiar uma obra literária, nem em formar uma biblioteca que mereça deveras esse nome. (Duma época mais optimista.)

Dizem que se o Schopenhauer fosse vivo, adotar-me-ia. Mas sobre isso falaremos depois…

— P. R. Cunha


Quando termina (livro)Márcio Tasso aponta para o livro Quando termina, dos escritores P. R. Cunha e Paulo Paniago
(Fotografia: Marcella Souza)

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

32 opiniões sobre “Ser escritor no Brasil, desagradável terreno da realidade — e não sou eu que quero interromper o sr. de Guesclin, é a condessa”

  1. Oh, meu doce Paulo.
    Com o tempo, ao ir mastigando as palavras que me dão acerca do que escrevo, boas ou más, percebo cada vez melhor que quando entregamos o trabalho a outro, para o mesmo o apreciar, acontece uma cremação efusiva e violenta dentro de nós, quase como o corte d’um cordão umbilical.
    Já não nos pertence, já não a sentimos, já nos é alienígena.
    Percebo, também agora, que os meus olhos brilham como lâminas quando inspiro as coisas que não escrevi, que são minhas, sempre minhas, nunca de mais ninguém. Vivem, dançam dentro de mim, fazem de mim bonito, rendem exércitos.
    Se nos podemos chamar escritores, e tu já podes, confesso achar que somos escritores exactamente por aquilo que não escrevemos, e gosto muito disso.

    Adoro-te, Paulinho, mal posso esperar por devorar esse livro que escreveste e que não é teu.

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    1. Meu querido Johnny,

      Tens lá toda a razão. Principalmente quando o trabalho está para ser cremado há quase uma década. A ver como são as coisas — abri o livrinho que saíra das máquinas, antes de pegar fogo à vista alheia, e não me lembrava de absolutamente nada. E creio cá que a felicidade muda de acordo com as nossas lembranças, pois não…

      (Recordar, com plena convicção, um trecho que nunca escrevi: e vice-versa.)

      A verdade é que há um cesto no primeiro piso. Dentro dele: revistas e livro de caixão à cova — embarcam para Lisboa num par de dias.

      São teus.

      Abraços atlânticos!

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  2. Os partos são uma experiência fascinante e mais ou menos dolorosa… e as depressões pós- parto uma realidade sentida por muitos pais.. e especialmente pelas mãezinhas que os sentiram crescer dentro de si.

    …entretanto um livro nasceu….um dos progenitores ainda está abalado e põe em causa uma série de aspectos, valores, capacidade, local escolhido para o nascimento…enfim, conflitos e contradições naturais de muitas as cabeça, especialmente da cabeça dos escritores! Ou não fossem os escritores…cabecinhas sempre pensantes!

    Quanto ao livro, vai fazer-se à vida e ao mundo, manter conflitos com os pais, lutar por ser maior, por passar fronteiras…talvez oceanos… ser amado…entendido..quiçá também “adoptado”……

    O importante, o mais importante de tudo e sejam quais forem as condicionantes, é que o livro nasceu da alma do(s) escritor(es). O resto são coisas da vida! Apenas isso!

    Por isso, muitos Parabéns a ambos os autores!

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    1. Adorável Dulce,

      Tuas palavras têm qualquer coisa de calmante; dão-me esperança.

      A comparação com o parto é perfeita. E creio que estive também apreensivo, tal e qual a mãe que de repente começa a reflectir a respeito do mundo em que viverá a vidinha que ela acabou de gerar. Mas se o ser é lá feito de celulose, essa angústia dura pouco. — Passou ligeiro: três dias após o lançamento, demonstro-me saudável, revigorado, pronto para a carreira solo. Porque o livro, que já nasceu e anda por si, acompanha agora outros pais adoptivos.

      Estou diante de uma folha em branco formato 140mm x 210mm (56g/m²). Existe ali, como se diz, um reino de formas para explorar e de harmonias para descobrir. É bem um novo navio que sai do cais. Sem destino definido, como tem de ser.

      Mando-te brisas brasileiras, minha amiga.

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    1. De fato, Ana. Pois que o azedume é meu desporto…

      Uns mostram optimismo de que a situação ainda possa ser contornada, outros dizem que o escritor já está vencido — que o escritor corre para o fracasso etc. Uma vez li qualquer coisa sobre a poluição do Tejo. As gentes que vivem na margem do rio dizem que a sujeira está lá, só que as águas correm com tanta força que não se vê. Não sei se serve de metáfora àqueles que se arriscam ao abismo da literatura. Desvio-me.

      Abraços!

      P. S.: como já deves ter notado, adoro ler o teu FreakPerfume.

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