Sob o título de «O enxadrista extravagante»

A verdade é que precisamos estar um bocadinho insatisfeitos para escrever, sabes? Se não estamos um bocadinho insatisfeitos, um bocadinho furiosos, de aí que escrever não faz muito sentido: largas este trabalho antes que ele dê cabo de ti.

(Dum livro a sair.)


Um jogador de xadrez de Copacabana suicidou-se pelo simples fato de ter perdido cinquenta partidas. Consta-se que dizia repetidas vezes: — No dia em que perder a quinquagésima partida enforco-me.

Certa vez, chegou-se ao porteiro do prédio em que morava e disse-lhe:

— Senhor porteiro, não vivo nove dias.
— Ora!, que ideia, tens saúde, vais viver ainda um monte.
— Para a quinquagésima derrota, faltam apenas duas. Em lá chegando, enforco-me.

E, como lá chegasse, — enforcou-se. Quem descobriu o cadáver do infeliz jogador foi o próprio porteiro. Ao ver o maníaco pendurado n’um candelabro, fez-se pálido como uma estátua de mármore de Itália e deitou a correr pelo prédio gritando:

— Ai!, que desgraça!, perdeu a quinquagésima partida.

Ao funeral do enxadrista muitos moradores notáveis de Copacabana, inclusive dois famosos diplomatas, se lhe referiram com palavras de justo louvor.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

22 opiniões sobre “Sob o título de «O enxadrista extravagante»”

  1. Pergunto ao escritor: porquê a necessidade de estar “um bocadinho” insatisfeito e furioso” para justificar o escrever? A satisfação e a paz não produzem escrita?
    Apenas do “atrito” nasce a ideia ou a emoção?…

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  2. Caríssima Dulce,

    O pronome correspondente à primeira pessoa do plural — despropositada provocação. Porque só um traquinas permite-se generalizar. Narrador do trecho, fruto de minhas penas, é bem um outro. Respondo por ele, no entanto, porque personagens literários estão sempre algures:

    «Se muito satisfeito, afogo-me numa tediosa inércia. O sossego é-me propício ao galanteio; ao amor — numa palavra. O sossego é-me íntimo-privado. Quando prosa, necessito desse bocadinho de fúria: sento-me à secretária porque insatisfeito com alguém, com alguma coisa; escrevo, acalmo-me. Meu coração sereno prefere andar de bicicleta, banhar-se ao Atlântico. Mas não sei se me explico…»

    Acrescentar-se-ia que o termo «apenas» restringe. A ideia, a emoção, vêm de todas os sítios (pacíficos & belicosos). Saber manipular, não olhar sempre da mesma maneira para as palavras — acho até que li qualquer coisa parecida num livrinho do Gonçalo M. Tavares.

    Há tantas formas, e fontes, e ignições, que é quase impossível não se contradizer, pois não…

    P. S. #1: talvez seja a verve tropical, este sol equatoriano que esquenta a cabeça: enfurece, inquieta, desencanta.

    P. S. #2: esquivei-me?

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    1. A minha pergunta surgiu desta frase “…largas este trabalho antes que ele dê cabo de ti.”. Diria que a resposta dada é abrangente, porque nela se englobam as condições/hipóteses mais propícias à escrita, das interiores… às meteorológicas .

      Contudo… apesar das complexidades da “alma” do escritor, continuo sem entender bem a dita frase. No fundo, continuo sem perceber como é que a escrita nascida de uma “alma” pacificada e serena pode “dar cabo de ti”. Não é um pouco incongruente? Ou será somente mais uma das contradições que habitam cada um de nós?

      E concordo que o termo “apenas” é restritivo e não foi a melhor escolha!

      Desejo um dia nem pacífico, nem belicoso…mas a gosto!

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      1. O Brasil é quente, caótico, errado… De forma que, no meu caso, a fúria, a angústia, a inquietação tropical me levam às «escritas» — na falta de melhor termo — ficcionais. Se não fosse desse jeito, se eu não lidasse com essa minha realidade (geográfica, social, metereológica, psicológica etc. etc.) o ato de escrever daria cabo de mim. Eis o porquê de eu ter dito que a generalização foi uma traquinagem. Bem gostava de compôr os livros numa montanha de neve, como o fizera o Nietzsche — mas não vivo para os Alpes. E o Nietzsche sofria de incontáveis doenças (essa imagem dele n’um casebre suíço a filosofar confortavelmente é romântica à beça). Percebe como não é difícil cair em contradições… Pensar sobre o ato de escrever é assumir que se deixa sempre um outro ato de escrever de fora: ao fazê-lo, portanto, se está a deixar de pensar em várias outras formas. Isso parece ocorrer com toda a gente, com todos os ofícios. Meu papá era médico e preferia operar os pacientes em absoluto silêncio; um outro amigo dele — trabalhavam ao mesmo hospital —, fazia as cirurgias enquanto escutava o Iron Maiden. Escreve-se para compreender essas (e tantas outras) ambivalências humanas? É como aquele tio distante que grita para o sobrinho: tu não podes fumar, gajo! — e logo depois o tio acende um cigarro. Mas já estou dando voltas.

        Obrigado por instigar-me, sempre, Dulce.

        E, pois: uma quinta-feira a gosto, para todos nós.

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  3. A transferência da voz (narrativa?) abre espaço para explicitações que, de outra forma, poderiam ser (ainda que inconscientemente) soterradas… inscrições sobrepostas envolveriam tais explicitações, o que faria elas quase um segredo. O texto promete…

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