Sob o título de «O enxadrista extravagante»

A verdade é que precisamos estar um bocadinho insatisfeitos para escrever, sabes? Se não estamos um bocadinho insatisfeitos, um bocadinho furiosos, de aí que escrever não faz muito sentido: largas este trabalho antes que ele dê cabo de ti.

(Dum livro a sair.)


Um jogador de xadrez de Copacabana suicidou-se pelo simples fato de ter perdido cinquenta partidas. Consta-se que dizia repetidas vezes: — No dia em que perder a quinquagésima partida enforco-me.

Certa vez, chegou-se ao porteiro do prédio em que morava e disse-lhe:

— Senhor porteiro, não vivo nove dias.
— Ora!, que ideia, tens saúde, vais viver ainda um monte.
— Para a quinquagésima derrota, faltam apenas duas. Em lá chegando, enforco-me.

E, como lá chegasse, — enforcou-se. Quem descobriu o cadáver do infeliz jogador foi o próprio porteiro. Ao ver o maníaco pendurado n’um candelabro, fez-se pálido como uma estátua de mármore de Itália e deitou a correr pelo prédio gritando:

— Ai!, que desgraça!, perdeu a quinquagésima partida.

Ao funeral do enxadrista muitos moradores notáveis de Copacabana, inclusive dois famosos diplomatas, se lhe referiram com palavras de justo louvor.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

22 opiniões sobre “Sob o título de «O enxadrista extravagante»”

  1. Pergunto ao escritor: porquê a necessidade de estar “um bocadinho” insatisfeito e furioso” para justificar o escrever? A satisfação e a paz não produzem escrita?
    Apenas do “atrito” nasce a ideia ou a emoção?…

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  2. Caríssima Dulce,

    O pronome correspondente à primeira pessoa do plural — despropositada provocação. Porque só um traquinas permite-se generalizar. Narrador do trecho, fruto de minhas penas, é bem um outro. Respondo por ele, no entanto, porque personagens literários estão sempre algures:

    «Se muito satisfeito, afogo-me numa tediosa inércia. O sossego é-me propício ao galanteio; ao amor — numa palavra. O sossego é-me íntimo-privado. Quando prosa, necessito desse bocadinho de fúria: sento-me à secretária porque insatisfeito com alguém, com alguma coisa; escrevo, acalmo-me. Meu coração sereno prefere andar de bicicleta, banhar-se ao Atlântico. Mas não sei se me explico…»

    Acrescentar-se-ia que o termo «apenas» restringe. A ideia, a emoção, vêm de todas os sítios (pacíficos & belicosos). Saber manipular, não olhar sempre da mesma maneira para as palavras — acho até que li qualquer coisa parecida num livrinho do Gonçalo M. Tavares.

    Há tantas formas, e fontes, e ignições, que é quase impossível não se contradizer, pois não…

    P. S. #1: talvez seja a verve tropical, este sol equatoriano que esquenta a cabeça: enfurece, inquieta, desencanta.

    P. S. #2: esquivei-me?

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    1. A minha pergunta surgiu desta frase “…largas este trabalho antes que ele dê cabo de ti.”. Diria que a resposta dada é abrangente, porque nela se englobam as condições/hipóteses mais propícias à escrita, das interiores… às meteorológicas .

      Contudo… apesar das complexidades da “alma” do escritor, continuo sem entender bem a dita frase. No fundo, continuo sem perceber como é que a escrita nascida de uma “alma” pacificada e serena pode “dar cabo de ti”. Não é um pouco incongruente? Ou será somente mais uma das contradições que habitam cada um de nós?

      E concordo que o termo “apenas” é restritivo e não foi a melhor escolha!

      Desejo um dia nem pacífico, nem belicoso…mas a gosto!

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      1. O Brasil é quente, caótico, errado… De forma que, no meu caso, a fúria, a angústia, a inquietação tropical me levam às «escritas» — na falta de melhor termo — ficcionais. Se não fosse desse jeito, se eu não lidasse com essa minha realidade (geográfica, social, metereológica, psicológica etc. etc.) o ato de escrever daria cabo de mim. Eis o porquê de eu ter dito que a generalização foi uma traquinagem. Bem gostava de compôr os livros numa montanha de neve, como o fizera o Nietzsche — mas não vivo para os Alpes. E o Nietzsche sofria de incontáveis doenças (essa imagem dele n’um casebre suíço a filosofar confortavelmente é romântica à beça). Percebe como não é difícil cair em contradições… Pensar sobre o ato de escrever é assumir que se deixa sempre um outro ato de escrever de fora: ao fazê-lo, portanto, se está a deixar de pensar em várias outras formas. Isso parece ocorrer com toda a gente, com todos os ofícios. Meu papá era médico e preferia operar os pacientes em absoluto silêncio; um outro amigo dele — trabalhavam ao mesmo hospital —, fazia as cirurgias enquanto escutava o Iron Maiden. Escreve-se para compreender essas (e tantas outras) ambivalências humanas? É como aquele tio distante que grita para o sobrinho: tu não podes fumar, gajo! — e logo depois o tio acende um cigarro. Mas já estou dando voltas.

        Obrigado por instigar-me, sempre, Dulce.

        E, pois: uma quinta-feira a gosto, para todos nós.

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  3. A transferência da voz (narrativa?) abre espaço para explicitações que, de outra forma, poderiam ser (ainda que inconscientemente) soterradas… inscrições sobrepostas envolveriam tais explicitações, o que faria elas quase um segredo. O texto promete…

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