Sobre «VBA Rules» & Dulce Delgado

vba

Por vezes faço grandes esforços para não dar a perceber a minha condição agorafóbica (s. f. [Psicopatologia] — Estado patológico caracterizado pelo medo de atravessar espaços públicos, como largos ou praças). Donde o marcado exagero dos meus relatos literários e certa timidez na hora de, como se diz, conviver. Não possuo contas em redes sociais, nada de perfil no Facebook, nem autorretratos no Instagram, self-made-tv no Snapchat. A plataforma WordPress (é assim que se chama?, plataforma?) proporciona-me esconderijo agradável: leiam cá o que eu escrevo, desnecessário expor-me, dizer que o Totó irascível comeu minha roupa de cama e depois fez bagunça imensa à casa de banho. Mas divago. Ontem descobri que existe um curioso brinquedo de electro-compartilhamento a que chamam de Versatile Blogger Award — o award remete-me de imediato ao The Oscars Academy Awards, o que não deixa de valorizar um bocado a empreitada. Mamãe, veja só, recebi um award. Mamãe orgulha-se dessas coisas. Acessei o sítio web do Versatile e deparei-me com o acordo tácito da brincadeira. Em tradução livre, explico que os responsáveis pelo projeto sugerem o seguinte:

Se você foi indicado, então você recebeu o prêmio Versatile Blogger.
1) À guisa de cortesia, diga obrigado para a pessoa que lhe deu o prêmio;
2) Inclua o endereço do blogue dessa pessoa, também à guisa de cortesia;
3) Depois, selecione 15 blogues/blogueiros que você descobriu recentemente ou segue com regularidade;
4) Indique esses 15 blogues para o Versatile Blogger Award — talvez seja uma boa incluir o link desses sítios;
5) Finalmente, diga sete fatos sobre si para a pessoa que nomeou-lhe.

Mais do que temer a timidez social, receio de ser lá acusado de fulano antidesportivo. Ao passo que responderei desta forma:

Agradeço à Dulce Delgado (escritora-fotógrafa-ilustradora-poetisa-etc.) pela indicação — pode-se encontrá-la nestes endereços: discretamente.wordpress.com & instagram.com/dulce_em_pausa. A Dulce é-me fonte inesgotável de criatividades. Eis sete fatos a meu respeito: UM) Perante questionários de awards, não sei bem o que fazer; DOIS) Gosto um bocado de suco de tangerina; TRÊS) Tenho trinta e dois anos, abandonei o jornalismo para escrever literatura, muitos — inclusive eu — não compreendem ao certo o que me levou a dar esse passo; QUATRO) Se houvesse um duelo Schopenhauer vs. Wittgenstein eu provavelmente apoiaria o Wittgenstein; CINCO) Gosto de cineastas das antigas — i.e.: Pasolini, Moravia, Citti, Tarkovski, Bergman, Kurosawa; SEIS) Eu tenho dez dedos nos pés — cinco no direito, cinco no esquerdo; SETE) Perdi meu pai quando jovem e até hoje estou a aprender a lidar com essa perda irreparável.

É bem este o modo como as coisas se passam comigo. E sobre as indicações de blogues alheios, o caro leitor tratará de perceber que nos breves dois meses de existência este torto sítio recebeu engrandecedoras intervenções aos comentários — meu Versatile Blogger Award vai para cada uma/um dessas/desses queridas/queridos leitoras/leitores.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

16 opiniões sobre “Sobre «VBA Rules» & Dulce Delgado”

  1. Paulo, muitas felicidade para seu prêmio de deserto. Com este poste eu senti muito identificado com você, para sua agorafobia, a perda de seu pai e o amor para a escritura. Nós às vezes temos que traficar para estradas difíceis. Mas eles sempre são abertos janelas novas. E tudo isto, misturado com senso de humor que é o modo como bem nós pode os levar. Eu estou contente para tí. Um abraço forte da Espanha.

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  2. Um prémio versátil em luva clara
    Que não se vende nem se declara,
    Num só verso tão pretensioso
    Condenso o universo das letras,
    Realidade – um embuste falacioso,
    No canavial das artes neutras.

    Gosto muito de ti puto, ora pois.
    Ganharás muitos mais.

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  3. A forma deliciosa como este seu post está escrito, com verdade e um tipo de humor que aprecio, só confirmam a minha escolha. Escolheu uma forma muito inteligente de abordar um assunto que pode ser encarado de muitas formas, inclusive com indiferença. Ou seja, não só alinhou no jogo, como resolveu fazê-lo com criatividade e de uma forma muito genuína.

    Estou certa que o tempo lhe dará o equilíbrio que todos precisamos, assim como a compreensão, que acha ainda não ter, sobre a decisão de se tornar escritor. Eu acho que essa razão já está evidente no seu blog e provavelmente em tudo o que já escreveu. Por isso, acredito que tem potencial para transformar este award a brincar num award sério e como deve ser!

    Entretanto, lateralmente às revelações anatómicas, cinéfilas, filosóficas, psicanalíticas e de paladar deste seu post, agradeço profundamente as linhas que me dizem respeito. Mais não seja, porque são as palavras de um jovem talento a uma “cota” que tem intenção de chegar ao fim desta passagem, com a certeza que explorou o melhor possível a criatividade que a vida lhe ofereceu.

    Boas escritas!

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    1. Querida Dulce,

      Estou a ganhar juízo e aos poucos as escolhas literárias já não causam (tantas) inquietações. De certeza que este electro-espaço tem me auxiliado imenso: experimentar possibilidades, manter contato consigo e com outros colegas de além-mar — gentil intercâmbio de ideias/palavras etc. Daí por diante, a fazenda textual ameniza-se.

      […]

      Um — longo — postscript sobre minhas visitas diárias ao @dulce_em_pausa: escrever, o ato de escrever, descrever-se, por vezes se mostra uma tarefa de solidão; mas a bagagem literária, os motes, as ignições mostram-se algures, precisa-se sair do esconderijo. A Dulce compartilha naturezas, linhas, detalhes, palavras — eu cá absorvo, mastigo e transformo tudo em algo próprio. O vínculo afetivo entre emissora e receptor (por mais que um bocadinho idealizado) salta à vista: convida a avançar, cada vez mais.

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      1. As palavras continuarão a nascer e a ser trocadas; as imagens continuarão a aparecer e a ser partilhadas com prazer. Uma troca agradável, criativa e afectiva para ambos os lados. Que bom!
        Este mundo precisa tanto da boa energia de vínculos afectivos!!!

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    1. Mi adorable M.,

      Sí: irresponsables, locos, completamente insanos. Y es por eso que escribimos, y olvidamos, y recordamos, y lo dejamos todo. Estamos solos, acompañados, sin nadie, con alguien. ——— Palabras incomprensibles, que nos entienden.

      Nos encontramos, es lo que importa.

      ¡Un honor, siempre!

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