É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza

A verdade é que poucos viventes problematizam tanto o próprio ofício como os escritores o fazem.

Sabe-se que não é adequado
estar constantemente a declarar
que escrever é terrível.

As pessoas se aborrecem — mas o faço por desporto. Digo que o escritor anda sempre com a morte. A perversa está à espreita, não hesita em ceifar quando julga necessário. Escreva depressa. A lâmina é afiada.

Escritor-personagem que deixa atrás de si rastros de encontros com a Morte (colocar a maiúscula quando Morte). 

Tentativas de enganar a Morte: escolher as palavras é também escolher as realidades — e cada um tem lá a própria. Na minha biblioteca, A república de Platão está ao lado de Os contos completos de Raymond Carver. Mais de dois mil anos separam Platão de Carver: mas ambos deitam-se lado a lado nas minhas prateleiras. Viajo dois mil anos em poucas horas se leio Platão de dia e depois leio Carver à noite. Sinto-me eterno durante essas poucas horas. Engano a morte, por pouco tempo.

Tentar escrever
sobre enganar a Morte
é viver.

Perguntas impertinentes sobre a Morte: há tantas realidades à nossa volta — por que selecionamos umas e não outras?, por que seguimos por este e não por aquele caminho?, por que uns morrem numa cama de hospital, e outro se jogam para o Atlântico? Uma passagem, como se diz, do que era para o que ainda não é.

O beijo de Morte: duas pessoas que se beijam. Permitem o beijo de um outro ser humano. Abrem uma concessão; sim, você pode cá me beijar. Não podemos beijar todos os seres humanos, só alguns. Determinada senhora de Teresópolis diz que só beijou dois homens em toda a vida. Essa senhora de Teresópolis recebera poucas concessões para o beijo, por isso se mostra geralmente triste.

Morte, resignação: precisa-se aceitar a condição de escritor. Ou, pelo menos, acreditar que se aceitou a condição de escritor. Esquecer-se dos golpes do mundo, o tumulto na rua que não lhe deixa dormir, a música alta do vizinho, os gritos de dor do rapaz atropelado — «barulhos do tempo».

Concluir (precipitadamente): escrever é continuar náufrago.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

12 opiniões sobre “É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza”

  1. Poxa. Estava realizando visitas aleatórias em blogs desinteressantes, em busca do qualitativo, e veja bem, me deparo em seus escritos fascinantes. Diferente dos demais, posso dizer que li com prazer afetivo, de identificação. Não dê fim ao seu projeto! Estarei, armas tecnológicas na mão, mirando suas perspectivas e analogias de vida. Já deve ter ouvido, mas repito: você é ótimo.

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  2. E na vida longa das memórias escritas e palavras guardadas, seguem-se tantos tiros na testa. Escrever – e não só, também ler – são as raízes basilares de uma humanidade desfigurada da sua própria razão. Dessa dor, bebemos nós com uma sede tão frenética quanto cruel, e é dela que vivemos, pois não há razão de existir mais transcendente que criar, e não há nada mais humano que a agonia a que nos sujeitamos.

    Um homem tão sábio quanto insano um dia disse-me, no seguimento de uma discussão acerca da crueldade das toiradas em Portugal e Espanha, que os animais não sentem dor, mas sim a ferida que lhes foi infligida. Ele disse:

    “Para um animal, ele é ferido e depois morre. Ele não entende os elementos subjectivos da dor, da mágoa, ele não processa essa dor nem essa mágoa.”

    Embora acredite que não seja esse o caso, e que de facto lhes dói bastante, confesso encontrar aqui uma resposta mais humana que animalesca. Nós, sim, destila-mos e devoramos a dor, a morte, a saudade, e todos os elementos custosos da nossa natureza humana, manufacturados por nós para isto, Paulo, para esta conexão, para ler as tuas palavras e as sentir como se sente a irmandade por um amor antigo, como o nosso amado Platão, que é mais meu namorado que qualquer namorado que já tive.

    A dor é escrita com maior sinceridade porque a nossa dor é só nossa, e é nela que se deposita a única beleza humana que conseguimos discernir em nós – um fim que nos dê alguma razão para um caminho tão obscuro mas tão simples: ser, só ser, e não ser mais nada.

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    1. Meu caríssimo Johnny,

      Sinto cá que se adicionasse qualquer verbo à tua mensagem, correr-se-ia o risco de alterar toda a configuração do Cosmos. E um rapaz com tamanha sensibilidade e destreza com as palavras bem merece que as estrelas permaneçam no seu devido sítio.

      Abraços admirados que embarcam num transatlântico idealizado.

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