Tudo isto é como uma zombaria sobre o sentido e o fim da própria existência

Heinrich von Kleist cometera o suicídio em 11 de outubro de 1811 — 174 anos e três dias depois, minha mamã foi levada ao hospital porque sentira fortes dores, contrações, e meu papá bem sabia que dali a pouco chegar-se-ia ao mundo um novo varão, fruto de vossas obras. Nasci a 14 de outubro de 1985, Dia de Pokrov, durante o qual os russos celebram a passagem do outono para o inverno; a primeira neve. O pequeno bebê de papá & mamã não sabia, mas algures lhe aguardava uma vida complexa, controversa, polêmica, assombrosa, estranha, desprezível, por vezes agradável. Numa palavra: como costuma ocorrer aos bebês, esse bebê de papá & mamã não sabia de nada. Logo mais, com trinta e dois anos, ainda sem saber lá de muita coisa, o bebê-adulto dirá que escreve livros de literatura, relatos autobiográficos, autoficção, tipo-pós-romance-Foster-Wallace-com–Hubert-Sally. Sacrificará a veracidade dos fatos à imagem que porventura (perhaps, em inglês) pretenda criar, escreverá um pequeno trecho com uma absurda associação suicídio-Von-Kleist/próprio-nascimento: cento e setenta & quatro anos e 3 (três) dias depois. Nem todos os dados serão de absoluta confiança.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

10 opiniões sobre “Tudo isto é como uma zombaria sobre o sentido e o fim da própria existência”

  1. Passei os últimos dois dias lendo os teus textos e os achei verdadeiramente impressionantes, PR Cunha. Tens um jeito muito próprio de montar essas estórias todas. Obrigada por compartilhá-las. Bjs!

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  2. O bebé de papá&mamã… que nasceu exactamente entre os meus dois filhos (1983 e 1987), já sabe muito bem o caminho que vai seguir!
    Porque quem escreve histórias como as que vamos lendo neste blog, em que a ficção, a realidade, a história e um humor cheio de personalidade se misturam com tanto tacto, não pode ter dúvidas! O seu destino está nas palavras! Com absoluta confiança!

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    1. Caríssima Dulce,

      Não há ovo de chocolate mais saboroso do que as tuas palavras.

      

A ver se este destino aos verbos será conjugado correctamente.

      Um abraço Atlântico!

      
(P. S.: acessei também o @dulce_em_pausa e estou cá completamente fora de si — os teus talentos deixam o mundo um bocado mais agradável, Dulce.)

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  3. When I was in college I wrote a short story based on the Von-Kleist suicide. All I remember is a quotation from Kleist on where he was planning to shoot, “you through the breast, me through the brain”. My professor’s comment at the time was “Where did you dig up this old scandal?”

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    1. Hi, Mr. Don,

      Thank you for riding your bike until this tropical website. I’m glad to know that you also appreciate Von-Kleist’s œuvre. He is definitely one of my favorite German writers. And also thank you for sharing about your short story based on his suicide.

      Where did you dig up this old scandal?

      I hear that, a lot.

      Have a nice day, indeed.

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