Jovens e velhos

Um jovem escritor brasileiro que, conforme diziam os nossos maiores críticos literários, tinha lá um futuro brilhante pela frente decidira interromper a fazenda do próprio romance depois de descobrir que a literatura nada mais é do que uma enciclopédia de citações, e que os escritores contemporâneos estão sempre a folhear essa enorme enciclopédia com verbetes de autores mortos em busca de temas sobre os quais escrever, tomando muito cuidado, naturalmente, para alterar uma ou outra palavra e assim não serem desmascarados. Como quisesse encontrar a fonte primordial de toda essa enorme enciclopédia, isto é, o primeiro registro de literatura da história, o jovem escritor brasileiro abandonara tudo para dedicar-se única e exclusivamente a essa pesquisa que, qualquer um podia perceber, não tinha cabimento, pesquisa absurda, portanto. Depois de alguns meses, ao finalmente se dar conta da infinidade de trabalho que teria diante de si, o jovem escritor brasileiro jogou-se do sétimo andar de um apartamento no Leblon, bairro carioca cujos moradores, soube eu mais tarde, já estão cansados de ver literatos — jovens e velhos — a cair dos edifícios.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

3 opiniões sobre “Jovens e velhos”

  1. A coisa é antiga, se você pensar bem. A ponto de, em pleno século 15, Michel de Montaigne ter reclamado: “Não fazemos senão nos entreglosar”. E como se fosse pouco: “Tudo formiga comentários”. Raça de danados, essa de escritores…

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  2. Embora adore o texto e inflexão intelectual da qual se alimenta, receio que o poder das palavras não esteja apenas no seu conteúdo, mas também na sua forma. A forma, no entanto, cobre vários espaços, não estou a falar de prosa ou poesia, sonetos ou quartetos, mas sim da forma como a sentimos, como a construção dá lugar aos pedaços de alma que jorramos, e como essas formas nos dão conforto nas curvas claras do texto. Safo viu muitas das suas líricas perdidas. Quem sabe um autor d’hoje não as reescreveu sem saber? E talvez a própria Safo apenas o tenha reescrito, mas o importante é que, seja o que for que reescreveu, foi cantado por milhares, inspirou romances e prazerosos olhares, não pelo que disse, mas pela forma como o fez, tão dela, tão bonita.
    Mil obrigados pelo texto, Cunha!

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