O declínio do seu tipo

Edith foi até ao frigobar, pegou na garrafa de vodca e deitou um pouco em ambos os copos. Sentou-se na beirada da cama, ergueu o copo para Francis, que recusou — não é propriamente a altura para um trago, Edith, onde já se viu, ele disse com azedume. Ela poisou os dois copos na mesinha de cabeceira, olhou pensativamente para ele e disse: se quer saber, isso me acontece com bastante frequência. Francis ficou calado, com as mãos cruzadas em cima da barriga, como se quisesse se defender de algum boxeador invisível. Não deve ser fácil para si, ela continuou, estar sempre com a cabeça voltada para os livros, para a escrita, assim por diante. Francis coçou a barriga. Essa coisa aí de literatura, ela disse, não é um jogo de rayuela, pois não. Francis concordou com a cabeça. Não precisa de ter vergonha, Edith disse num tom de voz conciliador. Francis fez cara de zanga. De certeza que você está a pensar numa tragédia qualquer do seu livro…, digo, da sua grande obra literária, de certeza. Francis encolheu os ombros, indiferente. Isso distrai um bocadinho, ela disse, não é o fim do mundo, Francis. A gente se habitua, ela disse, a gente se habitua.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

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