Duas conversas com um autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários

A primeira conversa que tive com este autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, foi em Viena, quando ele me dissera que, enquanto escreve, o escritor jamais deve pensar em sua escrita, deve apenas escrever. Da mesma forma que o nosso coração está a bater, ele acrescentou ainda, e muitas vezes não nos damos conta deste batimento. Quando eu resolvi lhe perguntar sobre o motivo de ele não ter publicado nada, nem uma linha sequer, nos últimos cinco anos, o autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, respondeu que desde a morte da esposa num trágico acidente rodoviário ele passara a tomar notas única e exclusivamente numa cadernetinha que ela lhe presenteara poucos dias antes do desastre. E como as linhas dessa cadernetinha já estivessem lá quase que completamente tomadas, a faltar apenas uma ou duas para serem preenchidas, o autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, não pretendia, de forma alguma, desperdiçá-las com quaisquer bobagens. Estou desde então, disse-me ele, a esperar pela chamada frase derradeira. Naturalmente, o comentário a respeito da catástrofe rodoviária e da morte da esposa nessa catástrofe rodoviária acabou por ensombrecer um bom bocado a dica — excelente dica, aliás — sobre nunca pensar no que se escreve, apenas escrever.

* * *

A segunda e última conversa que tive com este autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, foi em Gdańsk, cerca de quatro anos depois, e caía uma verdadeira nevasca lá fora. Estávamos hospedados no Sadova. Ao saguão do hotel, eu a ler o vespertino e ele a dar baforadas num cachimbo à moda Sherlock Holmes. O autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, quebrara o silêncio e dissera que tornara-se trágico não somente por conta da morte da esposa, mas principalmente por ter sido privado de atividades literárias. Como os futebolistas a quem é vedada a bola, ou jardineiros banidos do jardim. Prestar atenção, ele disse, nos escritores que se isolam demais, progressivamente melancólicos. Ou estão a fugir de algo, ou sentem-se lá já meio mortos — daí a predileção pelos ambientes frios, subsolos, salas de mármore ou de madeira, tudo muito apropriado para as celebrações fúnebres. O medo de que amanhã possa estar já tudo perdido. No dia seguinte, uma camareira do Sadova chamada Malwina encontrara pendurado o corpo do autor muito famoso, vencedor de vários prêmios, com lençol branco ao redor do pescoço enrijecido.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

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