Departamento de trânsito

Depois da morte do pai do Nestor — meu amigo dos tempos de escola — a mãe dele que, bem me lembro, costumava nos preparar deliciosas tortas de framboesa, a mãe dele, estava eu a dizer, passou a dirigir o automóvel que pertencia ao esposo falecido, um Honda ano 2016. Acontece de por vezes a mãe do Nestor, que mete-se nos copos todas as sextas-feiras, passar dos limites de velocidade. Quando chegam os avisos de multa, os envelopes levam ainda o nome do pai do Nestor, e não o da mãe do Nestor. O Nestor comenta, num tom que nunca sei se de brincadeira ou de malevolência, que, pelo menos para o departamento de trânsito, o pai dele ainda está vivo e dirige por aí como um desvairado. O departamento de trânsito não tomara conhecimento, portanto, do suicídio do pai do Nestor.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

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