Departamento de trânsito

Depois da morte do pai do Nestor — meu amigo dos tempos de escola — a mãe dele que, bem me lembro, costumava nos preparar deliciosas tortas de framboesa, a mãe dele, estava eu a dizer, passou a dirigir o automóvel que pertencia ao esposo falecido, um Honda ano 2016. Acontece de por vezes a mãe do Nestor, que mete-se nos copos todas as sextas-feiras, passar dos limites de velocidade. Quando chegam os avisos de multa, os envelopes levam ainda o nome do pai do Nestor, e não o da mãe do Nestor. O Nestor comenta, num tom que nunca sei se de brincadeira ou de malevolência, que, pelo menos para o departamento de trânsito, o pai dele ainda está vivo e dirige por aí como um desvairado. O departamento de trânsito não tomara conhecimento, portanto, do suicídio do pai do Nestor.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s