Homens fragmentados

No terceiro dia do ano de dois mil e dezesseis, Julia e o marido estavam sentados num café que fica a duas quadras de onde eu moro, cerca de quatro minutos de caminhada. O marido de Julia acabara de perder o emprego, razão pela qual mostrava-se macambúzio. Julia estava bem, tinha emprego e cortara o cabelo pouco antes do Réveillon com o mesmo cabeleireiro da esposa do ministro da Cultura. Enquanto o marido tomava o cafezinho curto com as costas inclinadas, Julia observava sobre os ombros dele um homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso, do Roland Barthes. Julia sempre gostou do Roland Barthes, já o marido dela não fazia ideia, nunca lera Roland Barthes. O homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso flertava com Julia e o marido de Julia deixou cair café na própria camisa azul e arrastara a cadeira para trás e fez cara de criança aborrecida e disse para si qualquer coisa como: mil diabos, café dos diabos, vá para os diabos etc. O homem que lia Roland Barthes piscou para Julia, sorriu, levantou-se e foi embora. Tanto bastou para impressioná-la imenso, ao que ela o identificou como representante de uma classe em vias de extinção, a classe dos intelectuais — com a qual o marido que estava a secar a camisa azul com um guardanapo não podia competir. Mas o que Julia não sabia, e também não tinha mesmo como sabê-lo, é que pouco depois o homem que folheava Roland Barthes chegou em casa, sacou da maleta um revólver destravado — a mesma maleta dentro da qual carregava o exemplar de Fragmentos de um discurso amoroso (Martins Fontes Editora Ltda. [tradução de Márcia Valéria Martines de Aguiar {2003}]) — sacou, portanto, dessa maleta um revólver destravado, colocou-o dentro da boca e disparou. Naturalmente, não sobreviveu.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

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